MODELOS EM LEXICOLOGIA, LEXICOGRAFIA E TERMINOLOGIA: A CONSTRUÇÃO DO CONCEITO E DA DEFINIÇÃO

(MODELS IN LEXICOLOGY, LEXICOGRAPHY AND TERMINOLOGY: BUILDING THE CONCEPT AND THE DEFINITION)

 

Maria Aparecida BARBOSA (Universidade de São Paulo)

Jeni Silva TURAZZA (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)

Antonieta LAFACE (Faculdade de Ciências e Letras da UNESP-Assis)

Luiz Carlos COSTA (Universidade Federal de Uberlândia)

Guiomar Fanganiello CALÇADA (Universidade de São Paulo)

 

 

ABSTRACT: We study some characteristics of conceptualization and definition process in the context of the enunciation generative path in order to obtain elements for a configuration methodology of the semantic-conceptual traces of a concept within technical-scientific, literary and no-literary discourses, as well as of its recuperation and treatment in dictionaires.

 

KEYWORDS: Concept; cognition; definition; lexicography; terminology.

 

 

0. Introdução

 

Examinamos, aqui, aspectos dos níveis conceptual, lexemático e terminológico do percurso gerativo da enunciação; diferenças conceituais e metodológicas entre os processos de conceituar e de definir, de modo a obter subsídios, para uma metodologia de configuração dos traços semântico-conceptuais de um conceito; a caracterização de tipos de contextos, discursos manifestados, em que são engendrados conceitos, por distintos processos, e que constituem as principais fontes de que são extraídos os correspondentes traços semântico-conceptuais. Com efeito, é na instância discursiva que se produz a cognição e a semiose, se instaura a conceptualização do ‘fato’, se engendra um conceito e sua manifestação lingüística; se presentificam os traços conceptuais, num procedimento de codificação. Dos contextos se extraem, num procedimento de investigação, esses mesmos traços. Estudamos, ainda, critérios para seleção e registro de conceitos em dicionários.

 

1. Conceptualização e percurso gerativo da enunciação

 

Os termos conceituar e definir, conceito e definição, não raras vezes, são indevidamente empregados, uns pelos outros e, até mesmo, considerados equivalentes. Essa relação de equivalência, entretanto, não se justifica, eis que são grandezas que têm qualidades conceituais específicas, constituindo, inclusive, unidades-padrão e processos de distintos níveis do percurso gerativo da enunciação de codificação e decodificação.

Esse percurso inicia-se com a  percepção dos ‘fatos naturais’, substâncias estruturáveis, enquanto informação potencial, para os homens, que se convertem em substâncias estruturadas, quando apreendidas pelos grupos lingüísticos e socioculturais, de diferentes maneiras, embora mantenham um núcleo de percepção biológica universal. Esse primeiro momento, da percepção, desencadeia um segundo, o de início do processo de conceptualização, ou da passagem da percepção à conceptualização. Esta compreende, por sua vez, nesse estágio, três tipos de atributos semânticos: o das latências, em que os fatos observáveis têm os seus traços identificadores em estado potencial, enquanto substâncias de conteúdo estruturáveis, apreensíveis; o das saliências, em que certas características dos fatos se destacam por si mesmas, na semiótica natural; o das pregnâncias, em que o sujeito enunciador individual e/ou coletivo seleciona os traços que irão configurar o conceito que têm do fato em questão. O terceiro momento, em que se conclui o processo de conceptualização é o da produção dos modelos mentais, dos conceptus, noções ou conjuntos noêmicos – traços semânticos conceptuais –, a que correspondem, por seu turno, os recortes culturais construídos, em última análise, os designata. Esses três momentos – da percepção, do início e do fim da conceptualização – constituem, assim, o próprio percurso da cognição, entendido como a apreensão e construção de uma ‘visão de mundo’.

 

2. Lexemização, atualização, semiose

 

O quarto momento do percurso gerativo da enunciação de codificação, o da lexemização e da terminologização, corresponde à conversão do conceito em grandeza-signo, em que se passa do nível cognitivo para o nível semiótico. A lexemização, “la mise em lexème”, e a terminologização, “la mise en terme”, constituem a configuração do conceito em grandeza-signo, no próprio ato de instaurar a significação. Assim, o metassistema conceptual, o mesmo para todas as semióticas-objeto de uma cultura, produz conjuntos de semas conceptuais que desempenham o papel de matrizes sígnicas, para os diferentes sistemas semióticos de uma mesma cultura, de uma macrossemiótica, por meio dos processos de semiologização, lexemização, terminologização e semiotização. Nessas condições, os conceptus devem ser considerados como lexias em potencial, ponto de partida do processo de lexemização e de terminologização. O metassistema lexemático, ou terminológico, conjunto das lexias com suas expressões e conteúdos (sobressememas), sua rede de relações, constitui, por sua vez, uma instância de competência que precede e autoriza a atualização da lexia num discurso concretamente realizado. Num quinto momento, da contextualização, tem-se um epissemema (simultaneamente, com a redução dos semas do sobressemema, determinada por uma situação de discurso e de enunciação, e o acréscimo de semas do contexto, na combinatória sintagmática), de que resulta a semiose.

A grandeza conceito situa-se num nível pré-lingüístico, pré-semiótico de designação, podendo mesmo existir sem a respectiva denominação, já que se pode ter a percepção e o conhecimento de um fato, sem a formação, de sua respectiva denominação. De fato, os conceitos mantêm diferentes tipos de relações com as denominações: há, como dissemos, conceitos sem denominações, há conceitos com apenas uma denominação, há conceitos com duas ou mais denominações, uma mesma denominação comportando dois ou mais conceitos. Esse ciclo prossegue, com o fazer interpretativo do sujeito enunciatário, a que se seguem a recuperação e a armazenagem da informação, que desencadeiam, subseqüente processo de conceptualização.

3. Conceituar e definir

 

Considerando esse percurso, Pottier (1991: 59) mostra a necessidade de, pelo menos, quatro níveis de análise: a) nível referencial, do mundo real ou imaginário (objetos, sonhos, memória do discurso de outrem, foto...); b) nível conceptual, de apreensão mental, da representação construída a partir do referencial, ao mesmo tempo tributária dos hábitos sociais e das necessidades criativas individuais; c) nível da língua natural, da competência lingüística em seu conjunto; d) nível do texto produzido, resultado de diversos componentes (lingüístico, cognitivo, contextual, situacional, intencional), em correlação possível com outros sistemas semióticos (gestos, proxêmica, ilustrações...).

Nessa perspectiva, a ontologia é a disciplina que trata do primeiro nível, ou seja, dos ‘objetos’, de suas características, organização e rede no universo natural; a conceptologia, no âmbito da lógica, ocupa-se da natureza dos conceitos, de sua representação e das relações que se estabelecem entre eles; a noêmica se define como o estudo dos elementos conceptuais e de suas relações, instrumentos necessários, para descrever o funcionamento da semântica de base das línguas naturais.

Definidos esses níveis de codificação e de análise, parece possível delimitar com maior rigor as grandezas conceito/definição, os processos de conceituar/definir. Se o conceito se forma num nível pré-lingüístico, a definição resulta de uma análise e descrição de grandezas sígnicas, situando-se no nível semiótico, no que concerne ao seu ponto de partida; o conceito é o resultado de uma interpretação de fatos naturais e/ou culturais; a definição é o resultado de uma interpretação de unidades lexicais. Conceituar é o processo de construção de um modelo mental que corresponde a um recorte cultural e, em seguida, de escolha/engendramento da estrutura léxica que pode manifestá-lo de maneira mais eficaz. Tal processo parte do universo natural. Definir é o processo de analisar e descrever o semema lingüístico, para reconstruir o modelo mental: o seu ponto de partida é a estrutura lingüística manifestada.

Ressalte-se que o percurso gerativo realiza-se pelo sujeito enunciador que cria um vocábulo/termo novo, ou reutiliza/recria vocábulos/termos pré-existentes, em discurso. No ato de fala, há uma reorganização do sistema lingüístico e do metassistema conceptual. Segundo Cabré (1993: 100), os conceitos não têm fronteiras rigidamente estabelecidas mas limites aproximados e difusos: com a normalização, passam a definir artificialmente seus limites. Configura-se o caráter instável e dinâmico do nível cognitivo. A estrutura do conhecimento pode mudar fundamentalmente por duas causas: pelo surgimento de um novo eixo, que leva todos os conceitos anteriores a redefinir-se; por uma nova forma de ver as coisas: os conceitos pré-existentes não mudam de eixo, mas de posição no seu eixo.

Os atos de conceituar, ou de engendrar um discurso manifestado são processos onomasiológicos, tomam como ponto de partida o continuum amorfo dos dados da experiência, passam pelo nível noêmico e chegam ao nível lexemático, vão do fato ao nome, tendo como produto a denominação. É o percurso do fazer persuasivo do sujeito de enunciação de codificação, desencadeado por quem fala, quem escreve. Esse sujeito de enunciação de codificação, tendo uma intenção de comunicação de determinado esquema lógico-conceptual, seleciona diferentes formas lingüísticas, suscetíveis de representá-lo, para engendrar o seu discurso enfim manifestado. Essa escolha integra o processo de modalização do discurso, enquanto competência e desempenho do sujeito enunciador. Desse percursos resultam conceitos, seus representantes semiotizados – grandezas-signos - e, em etapas posterior, presentificados em discursos manifestados. Destaque-se, ainda, que a construção do conceito pode ser “vertical” – do “fato” para o patamar cognitivo –, ou pode ser desencadeada nas relações sintagmáticas do discurso manifestado, em que o autor constrói paulatinamente um conceito qualquer. No segundo processo, a combinatória das palavras-ocorrência vai pouco a pouco  configurando o recorte conceptual que o autor tem do ‘fato’.

O percurso que parte do discurso manifestado, para chegar novamente ao nível conceptual, caracteriza o fazer interpretativo do sujeito enunciatário, um processo semasiológico, do signo para o conceito, realizado por quem ouve ou quem lê. Qualifica-se, assim também, o percurso lexicográfico-terminográfico, enquanto processo que parte da manifestação do nível lexemático, com as seleções, restrições e combinatórias sêmicas estabelecidas em discurso, para, num metadiscurso, articular semas representados por metatermos lexemáticos, operação de que resulta a definição.

 

4. A formação do conceito em discursos de diferentes tipos

 

                A idéia de conceito nos remete às representações dos conhecimentos adquiridos através das diversas experiências vivenciadas. Assim, as impressões captadas pelos sentidos, registradas na memória, estarão simbolicamente associadas aos itens lexicais da língua para fins de comunicação. Esses símbolos encontram-se à disposição dos falantes,  permitem-lhes trazer para o ato de fala seres, acontecimentos e fenômenos distantes no tempo e no espaço. Essa função simbólica da linguagem possibilita a troca de experiências, a transmissão de conhecimentos e da visão-de-mundo das diferentes pessoas e gerações, nas mais diversas culturas.

                O texto literário, por sua polissemia e complexidade, utiliza esses signos da língua comum, de maneira particular: remete simultaneamente a um referente extra-lingüístico e intra-discursivo, com uma variada gama de significações específicas. Ocorre nesses casos o desaparecimento da semia denotativa do enunciado em favor da semia conotativa, devido à ampliação dos semas virtuais que remetem às significações sugeridas pelo contexto. Em linguagem técnico-científica, um signo lingüístico que permite, numa língua natural, a expressão e a comunicação de um conhecimento especializado recebe a designação específica de termo. O mesmo signo, usado na expressão e na comunicação de uma experiência particular, artística, como é o caso da literatura, constitui uma metáfora. Observe-se, contudo, a semelhança do uso do signo lingüístico nas duas situações, face ao processo de conceptualização, se considerarmos que é no nível do significado que se situa a problemática do sentido. Nas duas formas de linguagem mencionadas, observa-se freqüentemente uma “reconceptualização” do objeto a denominar, em função das percepções culturais. Situa-se aí a questão da polissemia em relação à construção do sentido de um termo ou de uma metáfora lexical ou textual, pois  processos de construção do sentido sempre envolvem uma polissemia.

                É no nível do conceito que se acha o essencial das questões relativas à cognição e à natureza do saber, de sua objetividade e de sua ‘universalidade’, tendo em vista o caráter sempre construído dos conceitos, conforme resultados das pesquisas dos cognitivistas. Explorando a natureza das relações e dos diversos objetos concretos ou abstratos, delineia-se o suporte da denominação, no caso da linguagem técnico-científica. Nesse sentido, Pais (1997:221-222) afirma  que “a estrutura, o funcionamento e a produção dos processos de produção do conhecimento, articulado ao da produção de significação, enquanto função semiótica, permitem construir modelos que procuram dar conta do que é semelhante nas diversas comunidades humanas em função da “natureza humana”(...). Para isso, parte do ponto de vista de que os processos semióticos se caracterizam “por certos atributos comuns e constantes, decorrentes da natureza do homem, como espécie biológica, e de mecanismos básicos do funcionamento do cérebro humano, do processamento da informação que lhe é peculiar.” Assim, para distinguir palavras comuns da língua dita geral e termos de uma especialidade, é necessário considerar as relaçõess entre vocábulo ou termo e o conceito.

                Essa mesma atitude deve ser aplicada ao texto literário, embora não estejamos diante de um domínio avançado do saber, de uma especialidade de tendência ‘universalizante’, mas sim de um conhecimento particular, pois, do ponto de vista da criação, um objeto qualquer a ser fabricado, teve de ser concebido, antes de sua realização. Sua concepção implicou uma série de procedimentos comuns a todo modo de saber, (análise, síntese, classificação e definição), que conduziram à sua representação mental aqui chamada de “conceito” do objeto, por exprimir sua idéia essencial, seu arquétipo. Nesse sentido podemos aproximar os processos de designação que ocorrem na literatura e na terminologia técnico-científica, pois em ambos os casos se verifica um mesmo procedimento no percurso gerativo. Os objetos se aproximam na medida em que o texto literário, como os objetos de criação técnico-científica, são objetos pré-concebidos por seu autor. É a partir de um conceito comum aos membros de uma comunidade lingüística, que se opera a reconceptualização dos signos, decorrente de uma organização discursiva, com base  nos feixes de conotações desses signos. Assim, o referente do texto literário só pode ser construído com base no próprio invento -- o texto, pois, o sentido estabelecido não se universaliza em termos de conhecimento técnico-científico tendente à monossemia pretentida; ao contrário, é único, metafórico, idealizado, tendendo a uma monossemia discursiva. Assim, separação, no “Soneto da Separação” de Vinicius de Moraes significa “a instabilidade do sentimento do amor”.

Tratando-se da formação de conceitos, a feição histórica do universo de conhecimento acentua-se no ato de se creditar ao discurso definições vinculadas à produção de sentidos. A formação de novas instâncias conceptuais acontece e firma-se em neologias, tal como “fraudulência” , conforme o conteúdo temático da charge “A Flora Brasiliense”, (Folha de São Paulo, 20/04/2001), cuja definição se inscreve por “árvore da família das maracutaias”; “suas sementes  chegaram ao país com as caravelas e hoje, mesmo com raízes espalhadas pelo território nacional, seu caule espesso e sua copa frondosa estão fincadas no Planalto Central, bem no coração do Brasil”, expansão circunstancial e temática do título “A Flora Brasiliense”.

                Configura-se a charge editorial em verbete temático por uma difusão metalingüística, que permite a distensão de uma definição cujo teor finca suas raízes na crítica de um regime governamental, incongruências políticas, marca na trajetória histórica, respondendo pela formação cultural do país, segundo a projeção do “ter sido no antes” sobre o “vir a ser no depois”. É aí que se incorpora a distensão de um fazer discursivo, dado que a noção do conceito reveste-se por situações, em que se determina o “vir a ser”, um elemento do pensamento, um construto mental, representação de um objeto individualizado a ser descrito, a ser definido como parte da realidade do grupo social, caráter definicional de uma realidade a ser conhecida, posicionamento e definição, centrados na “Flora Brasiliense”, título que se expande por meio da estrutura lexicográfica, em que, formalmente, se determina o paradigma de registros. 

No jogo das lexias, o vocábulo “flora” remete a uma designação temática, manifestada por “fraudulência”, cujo conceito distende-se em parasitas, designação dada para políticos incrustados no caule da frondosa árvore, um “baobá”, a frondosa árvore do “Planalto Central”, em  cuja copa se encontram notas verdes, dólares.

Nesse aspecto, a formalização de um conceito na instância cultural consta de uma série de características comuns a uma classe de objetos, indicativa na comunidade, no grupo social; de uma mobilização de situações de uso, remontando-se a certos fatos da história cultural e política do país. Consideram-se, portanto, mobilidades centradas na definição, na estruturação do pensamento, cuja manifestação se dá na linguagem. O instrumento língua faz parte do processo de se formalizar conceitos, em que se sustenta “árvore da família das maracutaias”, parte da definição de “fraudulência”, de onde maracutaia coloca-se face ao universo parassinonímico. Configura-se a temática conceptual da charge, em que maracutaia denuncia a existência de “parasitas políticos”, inseridos em circunstâncias mal aparadas a práticas das funções políticas.

                Infere-se que a linguagem tem seu papel centrado no conhecimento de mundo, nas crenças e nas diferentes realidades, com possibilidade de formação e reformulação do saber cultural. No nível da cognição, o grupo social depara-se com conceitos progressivos da realidade construída, da formação do universo cultural; que se dá na instância discursiva. As palavras dicionarizadas remetem a situações de uso, firmando-se contextos e circunstancialidades, condição de produção do discurso, assim como “a árvore frondosa” abriga em seu caule os “parasitas políticos”. Descrição e configuração de uma linguagem instanciada no campo das definições passam a intercambiar situações mórficas da língua cuja composição permite o neologismo “fraudulência”, em que se sustentam parassinonímias na relação “fraudulência” e “flora brasiliense”, vinculadas à “árvore frondosa”: Assim, concebe-se, no verbete, a história e a conduta de um povo marcado pelas “maracutaias” de um governo que se define por “atos desonestos”. Para explicar o presente, busca-se no passado um resgate no eixo da história, de forma a conferir e justificar o presente, projeção para o futuro.

Arquivadas na memória semântica a longo prazo, sob a forma de esquemas, as construções conceptuais estão disponíveis para que os usuários de uma língua possam, pelo uso das palavras, ativá-las, para atribuir ao(s) mundo(s) e comunicar esses sentidos a outrem. Estudos apontam que, embora as categorias apresentem graus de consensualidade, seus limites são vagos e fluidos, o que explicaria as diferentes possibilidades de uso a que estariam sujeitas. A palavra é tratada a partir do seu enquadramento em contextos situacionais de uso real. Nesse caso, as categorias são concebidas, quanto a seus funcionamentos, não só como formas ou esquemas cognitivos que, socialmente apreendidos, são usados para organizar e compreender o(s) mundo(s)  subjetivizado(s) pelo homem, mas também para falar sobre esses mesmos mundos e sobre o próprio homem que o(s) signifaz. Adaptáveis às diferentes situações discursivas, as categorias orientam o processamento de novas informações semânticas bem como a recontextualização de significados - sentidos sedimentados pelo uso - propiciando novas representações para novas/outras formas de conhecimentos, decorrentes das atividades sócio-interativas humanas. Aquelas permitem tratar de posicionamentos assumidos pelos produtores do discurso, já que são empregadas de forma reflexiva, para adequarem os conhecimentos por elas formalizados aos modelos situacionais de contextos de uso, o que implica o não negligenciamento das intenções daqueles que estão envolvidos nos processos de produção de sentidos, compreendidos como sócio-cognitivo-interativos. Para esses estudos, deve-se pressupor que todo e qualquer conhecimento humano sempre é textualizado e contextualizado, independentemnte da dimensão do texto. Nessa dimensão, o texto é compreendido como lugar de reconstrução de definições - sentidos cristalizados pelo uso - que, lingüisticamente formalizadas, objetivizam e fixam novas/outras propriedades ou atributos conceptuais subjetivizados pela ação da linguagem e que, expressos por atos discursivos, garantem a tangibilidade do pensamento. Esse processo de objetivizaçãoósubjetivização, pela ação da linguagem, implica novas formas de representação e, conseqüentemente, outras formas de categorização para os conhecimentos de mundo. Nesse sentido, as formas de designação lexicais são continuamente ressemantizadas, garantindo a recontextualização de velhos significados, cujas raízes são inseridas nas matrizes da história. A cada ato de enunciação, portanto, os conteúdos condensados das designações vocabulares, são expandidos sob a forma de predicações, de modo a redefinir, por “velhas formas”, novas representações de mundo. Assim, pela retomada dos significados, é possível reconhecer o que foi legado pela tradição e como foi recontextualizado, frente às exigências de outros espaços e outros tempos. Ressalte-se que essa discussão foi conduzida por um procedimento teórico-analítico. Conclui-se que, no âmbito das práticas discursivas, o usuário não se sujeita às definições do dicionário, mas as recria continuamente.

                A ressemantização das palavras na instância discursiva conduz a uma ampliação e/ou modificação de seus significados, em nível de normas de universos de discurso e em nível de sistema, levando-as à situação de polissemia stricto sensu e à de homonímia.  Daí decorre, dentre outros aspectos, a necessidade de adoção de critérios rigorosos, de programas de microestrutura, macroestrutura e sistema de remissivas em dicionários de diferentes naturezas. Uma das questões complexas e relevantes, em lexicografia e em terminografia, é a que se refere aos critérios de seleção e registro de conceitos em dicionários gerais e especializados.

 

5. Considerações finais

 

Analisando os contextos que sustentam e manifestam essa complexa formação, no discurso técnico-científico, por exemplo, contextos constituídos de textos de especialistas e da mídia -, de que se extraem os traços conceptuais, formadores de um conceito, verifica-se que alguns desses contextos privilegiam o conceito stricto sensu, outros, o metaconceito e, outros ainda, o metametaconceito (Barbosa, 2000: 95-120). É necessário, pois, proceder ao levantamento dos traços semântico-conceptuais desses três subconjuntos constitutivos de um conceptus.

Cumpre ressaltar, ainda, que o processo de construção de um conceito pode ser “vertical” – do “fato” para o patamar cognitivo –, ou pode ser desencadeado nas relações sintagmáticas de um discurso manifestado, em que o autor vai pouco a pouco construindo, no seu texto, um conceito qualquer. No segundo processo, a combinatória das palavras-ocorrência vai paulatinamente configurando o recorte conceptual que o autor tem de um ‘fato’. De outro ângulo, tem-se o percurso que toma como ponto de partida o discurso manifestado, para chegar novamente ao nível conceptual, que caracteriza o fazer interpretativo do sujeito enunciatário, ou, noutras palavras, um processo semasiológico, do signo para o conceito, realizado por quem ouve ou quem lê; qualifica-se, assim também, o percurso lexicográfico-terminográfico, enquanto processo que parte da manifestação do nível lexemático, com as seleções, restrições e combinatórias sêmicas estabelecidas em discurso, para, num metadiscurso igualmente configurado como fazer interpretativo, articular semas representados por metatermos lexemáticos, operação de que resulta a definição.

A construção do conceito assume características semânticas, sintáticas, semióticas, pragmáticas diversas, se ocorre nas linguagens de especialidade ou nos discursos literários e sociais não-literários: o modo de engendramento de um conceito está em função do universo de discurso. Assinalemos, aqui, uma diferença relevante: no discurso científico, sujeito e anti-sujeito correspondem, muitas vezes, a interlocutores; no discurso literário, sujeito e anti-sujeito são sempre instalados no texto pelo autor. No discurso científico/tecnológico, o engendramento de um conceito geralmente se dá em relações intertextuais/interdiscursivas de vários pesquisadores, simultaneamente à formulação da teoria que o contém; no discurso literário, uma obra pode ser auto-suficiente, no engendramento de um conceito, numa intertextualidade intradiscursiva. No discurso técnico-científico, teórico e/ou prático, assim como no discurso literário, o engendramento do conceito é sintagmático, narrativo, transfrástico; no discurso terminológico, é eminentemente paradigmático, como processo e produto final, embora resulte de extrações de contextos de natureza transfrástica.

 

 

RESUMO: Este trabalho examina características dos processos de conceituar e de definir, situando-os no percurso gerativo da enunciação, de modo a obter subsídios para uma metodologia de configuração dos traços semântico-conceptuais de um conceito nos discursos técnico-científicos, literários e sociais não literários, bem como de sua  recuperação e tratamento em dicionários.

 

PALAVRAS-CHAVE: Conceito; cognição; definição; lexicografia; terminologia.

 

Referências Bibliográficas:

 

BARBOSA, Maria Aparecida. Estruturas e tipologia dos campos conceptuais, campos semânticos e campos lexicais. Acta semiotica et linguistica. São Paulo, v. 8, p. 95-120, 2000.

CABRÉ, Maria Teresa. Terminología, Teoría, Metodología, Aplicaciones, Barcelona: Editorial Antártica-Empúries, 1993.

PAIS, Cidmar Teodoro. Conceptuali++.-+-.

 

zação, denominação, designação: relações. Revista brasileira de lingüística. São Paulo, v. 9, n. 1, p. 221-239, 1997.

POTTIER, Bernard. Théorie et analyse en linguistique. Paris: Hachette, 1991.