O PAPEL DA LÍNGUA NO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DE  SENTIDOS SATÍRICOS

(THE DUTY OF THE LANGUAGE TO CONSTRUCTION OF SATIRIC MEANINGS)

 

Marly de SOUZA  (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)

 

 

ABSTRACT: This work  presents a poliphonic reading of a satirical discourse, that depends on the  linguistic aspects. This is because it is only from the text surface that we absorv the poliphony and, from it, the resource of irony, which supports satiric function.

 

KEYWORDS: language; discourse; poliphony; irony; satire.

 

0. Introdução

 

Este trabalho tem por objetivo verificar o papel da língua no processo de sentidos satíricos a partir da análise do poema “História Pátria”, de Oswald de Andrade. Ao se  considerarem as múltiplas possibilidades  que tem esse tipo de texto para a constituição da função satírica, atentar-se-á para o recurso da polifonia, tal qual nos apresenta Maingueneau, recorte esse a que acrescentaremos os estudos teóricos que configuram a sátira segundo  Scholberg e Hodgart. A opção por esses estudiosos deve-se à especificidade de que, na concepção do primeiro autor, a polifonia sustenta a ironia, precioso recurso para a sátira, e os dois últimos teóricos confirmam a necessidade de a função satírica sustentar-se pela ironia. Contudo, a análise que ora se propõe tem por objetivo verificar que esses preciosos conceitos tão somente se revelam a partir da construção lingüística, em seus múltiplos aspectos: fonéticos, morfológicos, sintáticos e estilísticos, cujas funções e estruturas são passíveis de serem subvertidas pela própria noção de polifonia. Sendo assim, se os recursos lingüísticos não são o ponto de chegada para a inferência de sentidos a um discurso satírico, são, sem dúvida, preciosos pontos de partida para a constituição da polifonia e da ironia, que sustentam a função satírica.           

 

1. Perspectiva teórica

 

Segundo Maingueneau (1996: 94), para se interpretar um enunciado como portador de um sentimento diferente do que se libera livremente é preciso depreender, no discurso do mesmo enunciador, várias vozes distintivas entre atos de fala e de discurso.

Ele faz uma primeira distinção entre autor, como responsável pela enunciação, e escritor, correlato do autor, a quem são delegadas vozes distintas, importantes para a compreensão do fenômeno do ethos, por exemplo, que, ligado ao locutor, ser do discurso, figurando no enunciado, por ser fonte da enunciação, encerra o ato da persuasão. Tal noção, já considerada pela retórica grega, está ligada ao comportamento e vem implicada no próprio escritor, visto serem os discursos inseparáveis de uma voz, de um tom particular. Mas o ethos pressupõe, além do sujeito enunciador, igualmente o sujeito leitor, sendo imprescindível para a compreensão do texto literário, para cujo objeto Maingueneau direciona essas noções teóricas. O Ethos pode sustentar, pelos modos de presença do eu no mundo, diversos  pontos de vista, que permitem transitar de um discurso oficial, autorizado à sua transgressão. Essa  propriedade – a constituição do ethos – é,  dentre muitas outras, atribuída à figura do autor.

Sendo polifônico, o discurso literário constitui-se de fronteiras difíceis de serem definidas posto que se pautam paralelamente por registros lingüísticos e por transgressões. Isso porque no discurso polifônico pode-se operar com balizas de sentidos entre os discursos institucionais, divisando-se com o real,  e as vozes que perpassam o discurso oficial e direcionam para a recriação da realidade. No discurso monofônico, dominante, tópico, histórico, há o interdiscurso, a polifonia, paradoxalmente alimentada pela voz oficial, e em interação com essa voz.

Uma unidade lingüística constitui-se em discurso desse ponto de vista concebido, quando suas partes se consolidam pela polifonia e só então essas partes se tornam complementares a ponto de definirem no todo, seus sentidos.  Há um eu criador, empírico, que se atém a um recorte da realidade, cujo poder de criação, por ser arte, resulta em ambigüidade, mas cuja construção lingüística deixa  pistas que possibilitam a  apreensão múltipla, também ambígua da realidade recriada,  por isso polifônica.    

A polifonia permite tratar, dentre outros, o fenômeno lingüístico da ironia que  não é assumido pelo sujeito da enunciação. Na ironia presentifica-se uma voz oblíqua, distinta daquela do locutor que, ao mesmo tempo em que se sustenta no enunciado,  nele se oculta. A ironia se constitui, por isso, de uma dissociação enunciativa: o locutor responde pelas palavras, enquanto pelos sentidos quem responde é o leitor.

Empregando a ironia, o locutor  pode produzir um mesmo enunciado interpretável tanto no nível textual ou da aparência, quanto no plano da transgressão ou da imanência. Mesmo sendo diretamente expresso – não é citação – o enunciado irônico não é da responsabilidade do sujeito da enunciação,  por isso não se sustenta nas coerências, mas nas dispersões. Existe uma espécie de continuidade ou circularidade entre as vozes que se manifestam no discurso, ou nos dizeres do próprio autor, uma associação, como se, na dispersão se sustentasse a unidade, a “monofonia”. Além desse coro de vozes, a ironia, para se manifestar integralmente, se é que isso seja possível, depende dos percursos feitos pelo leitor, que então se assume como co-enunciador.   

A ironia é um dos principais recursos da sátira, pois  gera um duplo sentido ao discurso  que, por isso, pressupõe um duplo auditório, o que corresponderia a um duplo tipo de leitores ou interlocutores, podendo ser visto a partir do ponto de vista polifônico.

A noção de sátira, por sua vez, assim como os sentidos do discurso polifonicamente constituídos, não apresenta limites bem definidos e, segundo Scholberg (1971: 123), depende do propósito de seu escritor para designar uma função, sendo que esta é que é satírica. Nesse sentido, a sátira pode ser também considerada polifônica uma vez que seu discurso é construído de tal forma que, embora não se comprometa com o mundo real, instiga o leitor a fazê-lo.

Em outras palavras, a autenticidade da sátira é garantida pela capacidade peculiar de abstração que tem seu criador para combinar realidade e imaginação, ou seja, constrói-se uma fantasia e nela se enxertam vívidas imagens do real.. Hodgart (1969: 57) ilustra essa condição da sátira com a metáfora da criação de jardins imaginários com sapos verdadeiros. A função satírica é reconhecida pela capacidade de abstração do real, criada pelo engenho com que se manipulam os recursos da língua e, por meio deles, transformam-se penosas realidades em dissimulações que contêm, ao mesmo tempo, um ataque agressivo e uma visão fantasiosa do mundo real.

A partir das noções de polifonia que contemplam a ironia e a sátira, propõe-se a leitura do poema “História Pátria”, de Oswald de Andrade, inserido no contexto do  Modernismo brasileiro e que traz em sua esteira a situação cultural da História do Brasil, recortada no poema pela formação étnica da nação e  recontada de modo estilizado por meio de múltiplas vozes que constroem uma nova história.

 

2. Polifonia, ironia e sátira em “História Pátria”

 

Graças às concepções polifônicas anteriormente referidas é possível presumir que no discurso poético “História Pátria”, de Oswald de Andrade (1925) há a aproximação da realidade e da ficção, da história oficial e de sua transgressão, oposições possíveis de serem depreendidas das muitas vozes do discurso que se constituem em uma realidade atemporal, ainda que seja historicamente marcada.

O poema  formalmente construído de um jogo espacial de palavras sugere uma leitura ingênua que permite recontar a História do Brasil de uma forma lúdica, mas que paradoxalmente representa um ponto de vista oficial. Essa leitura fica no plano da oralidade, da musicalidade e da exploração do visual que constituem o plano da representação. É como se fosse um disfarce que possibilita despistar o leitor e por outro lado também descompromete o autor que, quando não se revela, não se compromete com o dito. Pode-se dizer que há, nessa aparente representação, um mascaramento do autor, do poeta, que é também o escritor. Dessa forma, o enunciador que produz o texto não o assume, a não ser no último verso, “No litoral azul do meu Brasil”, mas por outro lado oculta-se por trás  do discurso da história oficial do Brasil que aparenta assumir. Tem-se aí uma enunciação polifônica, pois há um eu que se oculta e outro que se revela.

Compete então ao leitor que, passa a interagir com o autor e com isso se faz co-enunciador, podendo desvendar as possíveis intenções subjacentes ao texto.  São precisamente os conhecimentos de língua e de mundo que o autorizam a depreender outras vozes do discurso, como a do colonizador europeu,  representante da história oficial do Brasil, legitimado pela grafia com letra maiúscula, e a voz do clero,  validada pelos mesmos recursos lingüísticos. Mas os próprios meios que dão validade a essa visão histórica, pela forma como são representados, fornecem pistas ao leitor para fazer uma releitura e dela depreender a ironia. Isto porque, em uma leitura, feita na vertical, das designações dos elementos étnicos que contribuíram para a formação da nação, presentificam-se Aventureiros, Bacharéis, Cruzes de Cristo, Donatários, Espanhóis, flibusteiros, Governadores, e Holandeses. Se por um lado, o enunciador parece enaltecer o colonizador europeu, pela grafia com maiúscula e até pela ordem alfabética em que se apresentam esses lídimos representantes da raça “superior”, esses mesmos vocábulos, pelas suas próprias relações, e ainda pelos sentidos que assumem quando dessa relação, sugerem um efeito irônico, portanto uma leitura que vai, ao mesmo tempo, na contramão da sintaxe e na contramão da história. Como se isso não bastasse, há a voz do índio, que além de vir  inscrita em último lugar da lista de componentes da etnia brasileira, vem representada com letra minúscula, portanto, duplamente desvalorizado.        

A partir da designação de Locutor, o autor, ser físico (Oswald de Andrade), pode-se representar por L,  as demais vozes que emanam do texto, por meio do seguinte esquema:

 

                                               L1 – escritor (poeta), responsável pelo texto

 

                                               L2 – colonizador europeu  

 


                                               L3 - índio

        Locutor

                                               L4 – a “raça” brasileira

 

                                               L5 – o enunciador,  ethos identificado  “raça” brasileira

 

L6 – o leitor, co-enunciador do texto

 

Esse coro de vozes permite afirmar que a ironia é um dado implícito,  depreendido pelo leitor, que se instala como co-enunciador, no texto, sendo quem assume o ponto de vista da ironia. O enunciador, por sua vez, por assumir tão somente sua nacionalidade, “meu Brasil” é como se fosse efeito e não causa do discurso. Isso significa que, conforme afirma Maingueneau, só é possível perceber o sentido irônico pela polifonia, aqui manifestada graças à ausência do sujeito enunciador e a instituição do sujeito leitor, cujo lugar é mais ou menos previsto. Esse procedimento favorece um certo dinamismo à semântica do discurso, por possibilitar mais de uma leitura ao texto, recurso que propicia a atribuição de sentidos irônicos, uma vez que a ironia não se prende ao significado lingüístico  usual, pois extrapola o nível das aparentes representações. Essa dinâmica é  polifônica, pois de cada leitura emerge uma voz, que poderá ser distinta das demais, por representar um lugar específico do leitor.

Graças a essas considerações, observa-se que para se chegar à ironia do texto “História Pátria” é feita uma primeira leitura que pode ser chamada de leitura de superfície, no nível da língua, que atende aos aspectos morfológicos, sintáticos e  semânticos, cujos usos lingüísticos e aparentes desvios da norma poderiam ser imputados, quando muito,  à irreverência do autor, como rompantes de escritor modernista. O que predomina na aparência do texto é a pintura de uma pátria miscigenada, abençoada e coroada pelos tons românticos, onde o céu é mais azul. Compete ao leitor desmontar essa tessitura lingüisticamente arquitetada e construir a ironia a partir da inversão dos aparentes sentidos eufóricos da língua, mas que paradoxalmente neles se sustentam. O distanciamento do enunciador  contribui para essa leitura, uma vez que ele cede lugar ao leitor para assumir-se como co-enunciador.

 

3. Considerações finais

 

O jogo da polifonia permite que sejam questionados os significados lingüísticos da superfície do texto e que efeitos  de sentidos o discurso verdadeiramente sugere. Nesse jogo constata-se a existência da voz do escritor, Oswald de Andrade. É ele quem concebe o poema, executando o trabalho físico e mental. Contudo essa voz não pode ser reconhecida no texto, não há nada que a identifique. Sua ausência leva o escritor a instalar um locutor, a quem chamamos autor do texto. Esse locutor, embora exista no texto, a exemplo do escritor, não assume sua voz, apenas sua identidade.

O distanciamento do locutor tira dele o compromisso com o que é dito no texto. É como se ninguém respondesse pelo enunciado de fato. Mas à medida que o locutor se distancia, ele possibilita que o leitor assuma o enunciado, interagindo com o locutor, instrumentalizado pelas marcas lingüísticas e conhecimentos  de mundo. É um leitor previsto pelo autor. É então que se torna possível uma leitura paralela, fazendo verter, a partir da aparência do texto, os sentidos imanentes, tais como os conhecimentos da história do Brasil em suas diferentes versões, inclusive aquela que idealiza tudo, concebendo como principal integrante da etnia brasileira o elemento europeu, desvalorizando  o índio, e excluindo o negro.

O leitor reconstrói esses significados e, ao fazê-lo, inverte seus valores, inversão essa sustentada por algumas pistas dadas pela tessitura lingüística, que são as já referidas ordem alfabética das designações da etnia brasileira, as grafias com letra maiúscula quando representa o europeu, e com minúscula quando designa o índio, e ainda vocábulos como “flibusteiros” e “degradados”. Nesse ponto, esse leitor se compromete com o texto, assumindo os sentidos que ele reconstrói. Essa inversão de valores caracteriza a ironia, porque os significados do texto aparentam um sentido e se revelam outro, que se concretiza  pela polifonia. É a ironia, então constituída pela polifonia,  que permite dupla leitura ao texto: uma que está no nível lingüístico e outra que vai além das palavras.

Ocorre que a ironia por si só não basta para se afirmar que o discurso é satírico. Ela é um recurso. A sátira é uma função. A ironia se faz, na polifonia, graças a um apelo inteligente. Por isso o locutor, ao não assumir a própria voz , contribui para que o leitor assuma uma postura crítica frente àquilo que lê. É essa dupla possibilidade de leitura que permite ao leitor chegar à função satírica.

A função satírica é instaurada pelo choque provocado no leitor entre aquilo que está na superfície do texto, o que parece, a idealização da nação  e o que está na imanência, o que efetivamente  se revela, a verdadeira crítica a essa idealização. É o contraste entre o aparente equilíbrio, dissimulado pela  euforização  e a  realidade que se oculta e que o leitor, co-enunciador, revela pela disforização. A função satírica se efetiva pela utilização dos mesmos elementos da realidade, cuja subversão se faz possível pela  arquitetura lingüística. 

É, portanto, graças aos recursos da polifonia que é permitida uma dupla leitura ao texto poético “História Pátria”, duplicidade sustentada pelo recurso da ironia e que garante a função satírica do discurso. Pode-se dizer, então, a partir do  jogo de vozes, que o objeto de ataque desse discurso poético é a concepção romântica da origem e da formação da nação, quando tudo é idealizado. Essa concepção vê, tanto no europeu quanto no índio, a imagem da perfeição e exclui, por preconceito, o negro.  

 

RESUMO: Este trabalho contempla uma proposta polifônica de leitura de discurso satírico, cujo ponto de partida são os aspectos lingüísticos. Isto porque é da superfície textual que se depreende a polifonia e, desta, o recurso da ironia que sustenta a função satírica.

 

PALAVRAS-CHAVE: língua; discurso; polifonia; ironia; sátira.

 

ANEXO.

 

História pátria

 

 Lá vai uma barquinha carregada de

                                                       Aventureiros

 Lá vai uma barquinha carregada de

                                                           Bacharéis

 Lá vai uma barquinha carregada de

                                                          Cruzes de Cristo

Lá vai uma barquinha carregada de

                                                           Donatários

 Lá vai uma barquinha carregada de

                                                           Espanhóis

                                                Paga prenda

                                                Prenda os espanhóis!

Lá vai uma barquinha carregada de

                                                         Flibusteiros

 Lá vai uma barquinha carregada de

                                                         Governadores

 Lá vai uma barquinha carregada de

                                                     Holandeses

 

 Lá vai uma barquinha cheiinha de índios

 Outra de degradados

 Outra de pau de tinta

 

          Até que o mar inteiro

          Se coalhou de transatlânticos

          E as barquinhas ficaram

          Jogando prendas côa raça misturada

          No litoral azul do meu Brasil

(ANDRADE, Oswald. Primeiro Caderno do aluno de poesia. 2.ed. São Paulo: Globo, 1994 , págs. 32,33)

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

HODGART, Matthew. Satire. London: World University Lybrary, 1969.

MAINGUENEAU, Dominique. Elementos de lingüística para o texto literário.

Tradução Maria Augusta de Matos. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

SCHOLBERG, Kenneth R. Sátira e Invectiva en la España medieval. Madrid: Gredos, 1971.