ALGUMAS CONSIDERAÇÕES A RESPEITO DOS EFEITOS DE SENTIDO NA ANÁLISE DO DISCURSO E NA PSICANÁLISE.

(THE SOME CONCERNS ABOUT THE SPEECH EFFECTS IN THE SPEECH ANALYSIS AND PSYCHOANALYSIS)

 

Maurício Eugênio MALISKA (Universidade Federal de Santa Catarina)

 

 

ABSTRACT: Considering the Speech Effects, we are highlighting the convergences and divergences of this concept. Firstly, we are going to try to delimit what, either Psychoanalysis and Speech Analysis understand as Speech Effects. After, we will bring to the light some concerns about the divergences about this concept.

 

KEYWORDS: Speech Analysis; Psychoanalysis; Speech Effects.

 

                Em Análise do Discurso, aprendemos a primeira lição, que dá conta de eliminar a noção de mensagem, entendida como um mecanismo de comunicação, em que se tem um emissor, um código, um receptor, um canal; enfim, todos os postulados da teoria da comunicação que não pretendo esboçar, mas acredito ser do conhecimento do leitor. A Análise do Discurso irá afirmar, e com veemência, que não é da comunicação que se trata o discurso. Discurso não leva uma mensagem anexada, nem tão pouco um sentido ancorado. Assim como expõe Possenti (1997:02):

 

“A concepção de sentido como mensagem é tributária, entre outras, de uma idéia segundo a qual o sentido é uma espécie de objeto bem definido, contido no ou veiculado pelo significante, de forma bastante estável, embora não para todo o sempre.”

 

                A Análise do Discurso critica as teorias que apresentam o sentido atrelado ao significante, argumentando que o sentido não é imanente, nem tão pouco poder-se-ia pensar ao contrário, o sentido como transcendente, pois também não é um insight, nem um livre arbítrio, muito menos uma obra dos deuses. Em Análise do Discurso sustenta-se então, que o sentido não está atrelado ao significante, que um texto pode ter muitos sentidos, que o sentido é antes um produto, resultado de um processo: uma produção, cujo os efeitos, são efeitos de sentido. Isso não significa para a Análise do Discurso que não haja sentido, assim como fundamenta Possenti (1997:04):

 

 “Mas, o fundamental é enfatizar que, no que se refere ao sentido, não se trata mais de concebe-lo como uma mensagem codificada num texto, numa língua, como um conteúdo embutido num código. O que não significa, no entanto, excluir do discurso o material lingüístico, verbal, como já se insistiu acima.”

 

Mas sim, que esse sentido é um efeito da enunciação. Efeito de sentido é a produção oriunda da enunciação,  é no campo da enunciação que temos os efeitos de sentido; estamos então, no terreno do dizer.

                Na Análise do Discurso, não se trata do sentido enquanto entendimento, enquanto tradução, enquanto racionalização, e sim de sentido como efeito/produção de uma enunciação, o que não esta de todo modo descartado o entendimento oriundo desse efeito. Ainda citando Possenti (1997:04), podemos apreciar a leitura que este faz de Pêcheux:

 

“Pêcheux não exclui que o efeito de sentido entre os pontos A e B possa eventualmente ser uma informação. É o que se depreende de sua afirmação segundo a qual não se trata necessariamente disso. O que deve significar que ele propõe apenas – embora para o momento isso não fosse pouco – que não se trata sempre e unicamente de transmissão de informação.”

 

                Passaremos então, a uma tentativa de localizar os efeitos de sentido na Análise do Discurso. O primeiro ponto, que me parece central nesta tentativa, refere-se ao que já mencionamos acima, embora de forma um pouco tímida, no que diz respeito ao sentido, seja esse uma informação ou qualquer outra coisa, é sempre de um efeito que se trata; e, pode ser então, tanto um efeito na forma de sentido, quanto um sentido na forma de um efeito. A despeito do trocadilho provocado, torna-se importante ressaltar que o efeito é de uma enunciação. É o caracter de enunciação que faz a diferença de efeitos; é no dizer que se processa os efeitos, não estando aí os sentidos como contrapartida do significante, e sim os efeitos de sentido dessa enunciação; atrelados, evidentemente, aos demais significantes de uma cadeia linguageira. A enunciação está no campo do dizer, se não se mescla com esse, é no mínimo vizinha de porta, de modo que ambas estão situadas numa mesma rua designada: Discurso. Faz-se necessário salientar que esse “endereço”, por conta do conceito de discurso que esta permeando toda essa questão, é mais que efeitos de sentido. Um segundo ponto, que nos parece plausível e digno de consideração, sem no entanto querer estabelecer características dos efeitos de sentido, pois tal intuito seria de uma imprecisão conceitual, diz respeito a imprevisibilidade dos efeitos de sentido. Esses não estão dispostos a priori, nem tão pouco, tem lugar e hora para acontecer. Os efeitos de sentido não tem propriedade de tradução, e sim de um achado. Ainda acrescentaria, como terceiro ponto, que são inéditos e não se repetem - como convencionalmente se entende esse termo no léxico - e, é somente por possuir tais configurações que provoca seus efeitos.                              

                Suponho ter contemplado - da maneira que me é possível, com as ferramentas que disponho - de forma mínima a questão dos efeitos de sentido tal como são concebidos pela Análise do Discurso. Pretendo seguir, introduzindo com todo cuidado que se deve ter, o entendimento da Psicanálise a cerca dos efeitos de sentido. Devo já de antemão observar que está é uma tarefa um tanto quanto difícil, para não dizer audaciosa, talvez até esteja acima das minhas condições no momento; mas, sem dúvida tem o caracter de desafio, e antes dele, há o desejo em trabalhar esta questão, sendo esse o motivo de minha empreitada.

                De início devemos expor que a maior dificuldade, para min ao menos, refere-se ao fato que a Psicanálise não está situada num campo acadêmico; seu corpo teórico foi e é inventado na tentativa de responder as perguntas que advêm de uma escuta. O que não impossibilita, de todo modo, estabelecermos diálogos com outros campos do saber. Uma segunda dificuldade que nos reporta, de certo modo, à primeira, é que a Psicanálise não possui um conceito pré definido de Efeitos de Sentido, nem tão pouco há um texto onde seja explicitado de maneira a lançar esse termo como um dos conceitos da Psicanálise. Ademais, esse termo é trabalhado de forma mais próxima nos últimos seminários de Lacan (Seminários 22 e 23); o que nos coloca dificuldades por conta do pouco trabalho que temos em cima desses seminários.       

                Gostaria de me ater por mais algumas linhas, sem querer exaurir o leitor, num ponto de mencionei acima e que merece uma maior apreciação. Refiro-me a Psicanálise entendida como uma praxis. Isso significa dizer que a Psicanálise, surgiu como uma tentativa de compreender a neurose e seus mecanismos. Freud, em vários momentos de sua obra, explicitou ter sido as histéricas que lhe ensinaram a Psicanálise. Ele inventou na teoria um saber que elas já sabiam, no entanto sem saber que a sabiam. A Psicanálise não surgiu como um movimento ou uma corrente teórica, e sim foi se desenhando a partir da escuta do sujeito. De modo que os conceitos por ela vinculados, estão intimamente ligados a uma prática clínica. Mesmo quando Freud escreve textos em que trabalha com outros aspectos da vida, tal como religião, sociedade, arte, folclore; é do aparelho psíquico que está tratando, apenas busca em outras esfera da vida ou em outros campos do saber conhecimentos que lhe são úteis para a construção de uma teoria. Ao tentarmos estabelecer relações entre Psicanálise e Análise do Discurso, estaremos lidando com um material altamente explosivo, a modo do químico que em suas experiências sabe da alta periculosidade das substâncias que opera, em que todo cuidado é pouco. Será o sujeito do discurso, tal como entende a Análise do Discurso, o mesmo sujeito do inconsciente freudiano?

                Lacan isola totalmente a possibilidade de uma comunicação, ao modelo do que ocorre no exemplo das abelhas citado no “Função e Campo da Fala e da Linguagem em Psicanálise (1953)”, em que observa-se que as abelhas podem, com precisão, informar a outras abelhas, através do seu wagging dance, onde exatamente se encontra o butim. Aqui temos um esquema perfeito de transmissão de uma mensagem, sem perigos de atos falhos, enganos, esquecimentos ou qualquer coisa do gênero. Ocorre-me agora o exemplo citado por Freud (1905:113) no livro: “O Chiste e sua relação com o Inconsciente” (1905):

 

“Dois judeus encontraram-se num vagão de trem em uma estação na Galícia. ‘Onde vai?’ perguntou um. ‘À Cracóvia’, foi a resposta. ‘Como você é mentiroso!’, não se conteve o outro. ‘Se você dissesse que ia à Cracóvia, você estaria querendo fazer-me acreditar que estava indo a Lemberg. Mas sei que, de fato, você vai à Cracóvia. Portanto, por que você está mentindo para mim?’”

 

Podemos imaginar as abelhas numa articulação desta natureza, jamais conseguiriam chegar ao butim. Isso faz Lacan (1998:299) romper da linguagem como comunicação, descolar qualquer possibilidade de uma linguagem-signo, afirmando: “[...] a linguagem humana constituiria, então uma comunicação em que o emissor recebe do receptor sua própria mensagem sob forma invertida [...]”

                Lacan (1998:301) chega a postular a linguagem como algo acima do sujeito, em que esse está nela somente enquanto se perde nela como objeto, e que se perdendo como objeto pode constituir sua história como sujeito.

 

“Eu me identifico na linguagem, mas somente se me perder nela como objeto. O que se realiza em minha história não é o passado simples daquilo que foi, uma vez que ele já não é, nem tampouco o perfeito composto do que tem sido naquilo que sou, mas o futuro anterior do que terei sido para aquilo em que me estou transformando.”

 

                Até o momento, a Psicanálise parece aproximar-se da Análise do Discurso; mas ao fazer esse movimento de aproximação, provoca no mínimo um resguardo de suas concepções a cerca do  discurso. Isso nos parece um pouco mais claro quando recorremos a letra do discurso, entendida como o Real que irrompe a cadeia significante e desvela o sujeito pelo desmantelamento da linearidade do significante, mostrando o “rébus discursivo”. Isso, é a letra freudiana sustentada por Lacan, que  está para além da enunciação ou de um conjunto de enunciados que dispostos por uma organização própria tem como efeito o sentido. Apesar da Análise do Discurso sustentar está mesma posição teórica, a prática psicanalítica se afasta da prática da Análise do Discurso, por muitos fatores, que irei apenas citar alguns: a transferência, o real do corpo nem sempre contemplado na Análise do Discurso, a escuta e a interpretação. A Psicanálise trás o descentramento do sujeito em relação ao que diz, a ponto do sujeito não ser senhor de suas palavras, mas escravo de seu discurso, cujo o efeito é o rompimento radical com o sentido e com toda e qualquer possibilidade de entendimento. O sujeito é tomado pelo vazio, o nada. Esse me parece um ponto de encontro entre Análise do Discurso e Psicanálise; pois contemplam o lugar da enunciação e o lugar da letra operando o e no sujeito.

                Gostaria de me ater ao diferencial da prática psicanalítica, explicitando os pontos que citei acima, com a ressalva de que são conceitos caros à Psicanálise e torna-se difícil apresenta-los em tão poucas linhas, haja vista que há livros e livros dedicados a eles. A transferência é um conceito chave na Psicanálise e um fenômeno importante e de difícil manuseio na prática, em que aparece sob várias facetas e de diversas formas; de modo que o analista utiliza-a como “instrumento” para que o trabalho de análise ocorra, e todo efeito, seja de escuta, interpretação ou de sentido ocorre na (dentro da) transferência, e penso que só a partir dela é que ocorre os efeitos da escuta. De modo que pelo pouco conhecimento que tenho em Análise de Discurso, por mais que a transferência seja levada em consideração, está longe de se processar da mesma forma que no divã.

                Ainda numa Psicanálise há a presença do real do corpo, aquilo que está lá, e não podemos negar; está presente com todos seus tropeços gestuais, comportamentais e orgânicos; em que é indiscutível os efeitos da palavra sobre um corpo; dimensão esta que nem sempre está presente nas Análises de Discurso, em que geralmente há o predomínio do registro imaginário e simbólico. A escuta em Psicanálise não é só simbólica, se dá através do físico, dos fenômenos fonéticos, do ritmo de pronuncia e entonação do falante, da afasia, da lalação, da gagueira; enfim atos  que só são possíveis levando em consideração a dimensão real do sujeito, de um corpo que fala no sujeito. Esses assim como outros atos em análise só são possíveis por avançar para além do plano  simbólico.  Aqui também incluem-se os atos, cortes, intervenções, risos, palavras, ironias do analista; pois sabemos com Lacan que o inconsciente é transindividual, o que inclui aí sob o “título” de sujeito é tanto analisando quanto analista: “O inconsciente é a parte do discurso concreto, como transindividual, que falta à disposição do sujeito para restabelecer a continuidade de seu discurso consciente.” (LACAN,1998:260)   

                Posso estar enganado, mas não vejo a mesma postura exposta acima tão claramente na Análise do Discurso, de modo que isso dá-me subsídios para advogar em favor de que há um diferencial marcante da prática psicanalítica em relação a Análise de Discurso, em que podemos com justeza verificar que partem de mesmos postulados teóricos, compartilham de uma mesma visão epistemológica, mas não estão situadas no mesmo campo de atuação, e isso as modifica em muito.

                Os efeitos de sentido em Psicanálise, são enquanto tal, por um rompimento do sentido, tomado aqui como sinônimo de entendimento ou tomada de consciência. O efeito de sentido é o ponto em que o Imaginário toca o Real, de forma que este aparece como imprescindível para o sujeito. Já para Análise do Discurso, é importante o modo como o sentido, é produzido como efeito. “Na perspectiva da AD a ideologia não é ‘X’ mas o mecanismo de produzir ‘X’” (ORLANDI,1996:30)  “[...] o que interessa não são as datas, mas os modos como os sentidos são produzidos e circulam. (ORLANDI,1996:33). Na Psicanálise e na Análise do Discurso não há somente a dimensão da enunciação, que está situada no registro Simbólico, e sim há também a retirada do sentido que provoca a sincope do sujeito, de modo que estamos numa dimensão Real. “Ao introduzir a noção de sujeito e de situação, a AD as transforma porque trabalha o descentramento do sujeito (como origem).” (ORLANDI,1996:27)

                Os efeitos de sentido na Psicanálise adquirem as mesmas características da Análise do Discurso, exceto o sentido como efeito, preservando somente o caráter imprevisível e o caráter de inédito. Não temos o sentido como efeito e sim, o sentido desfeito, como podemos observar no dizer de Orlandi (1996:64):

 

“Em suma, interpretar, para o analista de discurso, não é atribuir sentidos, mas expor-se à opacidade do texto (ainda Pêcheux), ou, como tenho proposto (Orlandi,1987), é compreender, ou seja, explicitar o modo como um objeto simbólico produz sentidos, o que resulta em saber que o sentido sempre pode ser outro.”

 

Ainda que em Análise do Discurso haja o desmantelamento do sentido, as análises trabalham muito freqüentemente com práticas sociais onde partem do imaginário e retornam a ele, sendo muito poucas análises que se detém nessa “caída” dos sentidos.  O que também ocorre em Psicanálise, o intervalo do nonsense é momentâneo, o retorno ao imaginário é inquestionável e até fundamental para o sujeito. Ainda temos que considerar, que no retorno ao imaginário o sujeito já não é o mesmo que partiu; isto é efeito.

                Qualquer possibilidade de consideração dos efeitos de sentido, só pode ser tomada, ao meu ver, se entendermos para além do léxico, tocando a dimensão do Real – conceito complexo que não é o momento para atermo-nos, de todo modo podemos dizer tanto com Harari (1990:93): “Quanto ao efeito de sentido, que vai além do dito lexical – quando, por exemplo, uma interpretação provoca a emergência de um Real impensado – pode-se situá-lo entre o Imaginário e o Real.” Ou, Eni Orlandi (1996:50): “Para atingir o que constitui a ordem significante, ele tem que considerar o que esta organização indica em relação ao real, seja da língua seja da história.”

 

                Dessa mesma forma, Lacan afirmou que não há metalinguagem, afirmação retomada por Harari (1990:95), em forma de uma pergunta:

 

“A partir de onde não há metalinguagem? Onde não há esta linguagem especial que falará com um Outro do Outro, acerca da língua comum? Lacan sustentará esta última afirmação enquanto enunciado que diz do Real (R). Aí não há metalinguagem. Todavia, no registro Imaginário, sim é possível metalinguagem.”

 

                Por fim, o efeito de sentido é a retirada do sentido, é o esvaziamento da palavra, é dá lugar ao não sentido ou nonsense, com base no que falava Freud: o neurótico sofre de reminiscência, dá muito sentido as coisas, e é nossa função desmontar o sentido. Então, os sentidos são (des)feitos. Para com a caída dos sentidos, o encontro com o nonsense, com o Real e em última instância, com o rochedo da castração.

 

RESUMO: A partir dos Efeitos de Sentido estaremos marcando as convergências e divergências a respeito deste conceito. Primeiramente tentaremos estabelecer o que é Efeitos de Sentido para a Análise do Discurso e para a Psicanálise, para posteriormente traçarmos algumas considerações a cerca de divergências a respeito deste conceito.

 

PALAVRAS-CHAVE: Análise do Discurso; Psicanálise; Efeitos de Sentido.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

FREUD, Sigmund. (1905) Os chistes e sua relação com o Inconsciente. V.8. Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

HARARI, Roberto. Uma Introdução dos quatro conceitos fundamentais de Lacan. Campinas: Papirus,1990.

LACAN, Jacques. Função e campo da Fala e da Linguagem em Psicanálise. (1953) In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1998.

ORLANDI, Eni de Lourdes Puccinelli. Interpretação: autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico. Petrópolis: Vozes,1996.

POSSENTI, Sírio. Sobre as noções de sentido e de efeito de sentido. In: Análise do Discurso. V.6, nº 2, Marília: Cadernos da F.F.C.,1997.