ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O ENSINO DE CONCORDÂNCIA VERBAL EM LIVROS DIDÁTICOS DE PORTUGUÊS

(Same considerations about verbal agreement teaching in Portuguese didactical books)

Roseli Hilsdorf Dias RODRIGUES (Unitau) – (PG FFLCH-USP)

ABSTRACT: This research aimed to investigate the predominant grammar teaching approach in Portugueses didactical books. Twelve books were analysed in the verbal agreement content. It was concluded that the predominant type of grammar teaching used in these books is the prescriptive one.

KEYWORDS: grammar teaching; verbal agreement; didactical books.

0.  Introdução

Até a década de 1960, como comentam Soares (1992) e Staub (1987), a educação estava voltada principalmente à elite sócio-economico-política e cultural do país. O acesso para os filhos de famílias menos favorecidas, quando ocorria, era geralmente até o então 4º ano do grupo escolar. A língua materna veiculada na escola, a língua da classe dominante, era compartilhada por professores e alunos.

Decorrentes da democratização do ensino em nosso país (década de 1970), surgem vários conflitos entre a escola elitizada e sua nova clientela, em particular, a discriminação lingüística. Professores passaram a dizer que não entendiam a “língua falada por seus alunos” e o fracasso escolar de segmentos desfavorecidos da população demonstrou que os alunos, por sua vez, também não estariam entendendo a “língua da escola”. Essa questão está diretamente relacionada com o tipo de ensino de língua ainda predominante em nossas escolas, o ensino prescritivo.

Devido ao preconceito lingüístico-social e à estigmatização das variedades não-padrão da língua, construções como “nós vai; a gente fizemos; foi eles que falou; etc.”, tão presentes na realidade lingüística dos alunos, apresentam um alto grau de rejeição pela sociedade, inclusive pela escola. Por essa razão, o conteúdo “concordância verbal” deveria ser privilegiado no trabalho com os alunos do Ensino Fundamental.

1. Concordância verbal nos livros didáticos

Os dados apresentados neste trabalho referem-se à pesquisa concluída em 1999, sobre alguns conteúdos de gramática em doze livros didáticos do ensino fundamental (5ª série).

Com relação à concordância verbal, o primeiro dado que chamou a atenção foi a pequena quantidade de atividades propostas pelos livros analisados sobre esse conteúdo. O livro de Lopes e Lara (1997) não apresenta nenhuma atividade relativa aos assunto. Os de Cócco e Hailer (1993) e de Magalhães e Cardoso (1994) apresentam apenas um exercício cada, que não tratam especificamente desse assunto. Sete livros apresentam de seis a dez exercícios. Os que apresentam a maior quantidade de exercícios são, respectivamente, o de Tesoto e Discini (1994), com 18, e o de Nicola e Infante (1997), com 22.

Essa quantidade parece ser insuficiente para tratar de conteúdo tão relevante, tanto para a produção de textos (de língua oral e escrita) dos alunos, quanto para um bom desempenho lingüístico no processo de interação pela linguagem e também para uma melhor compreensão dos mecanismos de estruturação e funcionamento da língua portuguesa.

Com relação à contextualização dos exercícios de concordância verbal, encontramos em maior número as frases (isoladas, fora de contexto). Isso revela uma concepção de língua que não leva em consideração o texto, a situação de uso da língua nem as condições de produção e de leitura. Em quantidade menor, pequenos textos, anúncios, notícias, propaganda, história em quadrinhos, frases de jornais e revistas. Alguns exemplos:

 

Autor/ano

Transcrição do exercício

Luft e Correa (1996: 94)

3. Reescreva as frases abaixo fazendo a concordância verbal:

a)  Os códigos ____ estudados por lobinhos e escoteiros. (foi/foram)

b)  O Arquipélago de Fernando de Noronha ____ muitos turistas. (atrai/atraem) (...)

Bassi e Leite (1996: 143)

3. Reescreva as orações abaixo passando-as para o singular ou para o plural:

a)  Ele tinha um nome muito parecido com o meu. (...)

c) Nós acamparemos na praia perto de onde vocês pescam. (...)

 

Nove entre os doze livros apresentam antes dos exercícios: radical, VT, desinência, quadros de conjugação verbal, regras de concordância verbal, pessoa e número dos verbos. Seis dentre os nove estabelecem relação entre o sujeito e o verbo, regra básica de concordância verbal, conforme comenta Soares (1996: 61) em seu livro para o professor.

“4. Escreva orações escolhendo, para cada sujeito da primeira coluna, um predicado na Segunda coluna. (...)

O exercício visa levar o aluno a perceber que certos grupos de palavras podem ser sujeitos de determinados predicados, formando orações, e que outros grupos não podem ser sujeitos de determinados predicados; intuitivamente, o aluno percebe a concordância entre sujeito e predicado.”

Faraco e Moura (1995: 211) propõem:

“4. Observe o exemplo: Caiu o penacho. (as plumas)/Caíram as plumas e o penacho. Faça o mesmo: a) Transformou-se em cinzento triste o azul das penas.(o verde)”

Esse exemplo merece ser comentado, porque o caso de sujeito posposto ao verbo é um dos mais problemáticos de concordância verbal. Nesse caso encontra-se a maior incidência de desvios em relação às regras da gramática normativa. É um dos pontos que apresentam maior grau de dificuldade para os alunos (e não só para eles!) em suas produções textuais (orais e escritas) e não creio que a 5ª série seja o momento da vida escolar mais adequado para tratar das questões que apresentam tais complexidades.

2. As pessoas gramaticais e os pronomes pessoais

Soares (1996: 156-7) é a única autora (dentre os doze livros analisados) que assume de forma clara e explícita a coexistência dos pronomes você (vocês) e tu (vós) como pronomes pessoais do caso reto de 2ª pessoa.

Faraco e Moura (1995: 96) apresentam o quadro dos pronomes pessoais retos com a segunda pessoa tu (singular) e vós (plural). Embaixo do quadro, os autores fazem uma observação: “Os pronomes você e vocês também são utilizados como pronomes pessoais. Em muitas regiões do país emprega-se você em lugar de tu, e vocês em lugar de vós. Portanto, trata-se de pronomes de 2ª pessoa, apesar de exigirem o verbo na 3ª pessoa.”

Na página seguinte, os autores apresentam um quadro de pronomes de tratamento no qual não consta o pronome você. Logo abaixo do quadro, os autores dizem: “O pronome você, (...), era antigamente um pronome de tratamento cerimonioso. Hoje é utilizado no tratamento informal”. Essa postura dos autores é incômoda, porque, afinal, você/vocês é um pronome pessoal reto de 2ª pessoa ou é um pronome de tratamento, ainda que informal? Os autores deixam essa interrogação em aberto. Não são os únicos.

Bourgogne e Silva (1996: 100) dizem:

“Você aprendeu que para haver comunicação é preciso que o emissor (quem fala) e o receptor (com quem se fala) se entendam. Além disso, o assunto (pessoa ou coisa de quem se fala) deve estar organizado.

“Chamaremos a comunicação de discurso e os elementos da comunicação (emissor, receptor e assunto) de pessoas do discurso. Quando você conversa e emite uma mensagem, você é emissor e, por isso, a primeira pessoa do discurso. Quando você é o receptor, torna-se a segunda pessoa do discurso e, se por acaso for o assunto de alguém, será considerado a terceira pessoa do discurso.

“1. Leia o trecho: Eu encontrei minha professora na rua. Ela carregava lindas flores bem diferentes daquelas que me mandava desenhar. Tu conheces minha professora, não é mesmo?

“Neste pequeno trecho, você [grifo nosso] encontra algumas palavras destacadas. Pensando nos elementos da comunicação, ou seja, nas pessoas do discurso, identifique a palavra que se encaixa como emissor, como receptor e como assunto. Discuta com um colega para responder.”

Parece ser bastante contraditória a posição dos autores, por se dirigirem ao aluno/leitor como você o tempo todo e, de repente, introduzirem, ninguém sabe de onde, um tu. Como estabelecer a relação entre o você: com quem se fala e o tu que subitamente apareceu no exercício? Essa também parece ser uma postura insatisfatória quanto à questão das pessoas do discurso.

Luft e Correa (1996: 139) apresentam quadro dos pronomes pessoais retos, cujas segundas pessoas (singular e plural) são tu e vós, e, no exercício, propõem:

“4.  Reescreva as frases no caderno. Siga o modelo:

Eu me sinto feliz./ Você se sente feliz./ Ele se sente feliz.

Nós nos sentimos felizes.”

Os autores não assumiram explicitamente que o pronome você(s) é pronome pessoal reto, mas no exercício, em vez de tu, propõem você.

Posição semelhante é adotada por Bassi e Leite (1996: 122-3), que apresentam um quadro dos pronomes pessoais do caso reto, com tu e vós para a 2ª pessoa. Abaixo do quadro, apresentam observação: “Em várias regiões do Brasil, os pronomes de tratamento você/vocês são usados como pronomes pessoais no lugar de tu e vós. Nesse caso, porém, exigem o verbo na 3ª pessoa”. Abaixo do quadro de pronomes de tratamento, os autores fazem outra observação: “O pronome você, antigamente vosmecê, deixou de ser um pronome de tratamento cerimonioso e hoje é empregado informalmente como pessoa do discurso”.

Em Nicola e Infante (1997: 85) temos um caso mais complicado:

“Você certamente lembra quais são as três pessoas do discurso.

Primeira pessoa: a que fala

Segunda pessoa: com quem se fala

Terceira pessoa: de quem se fala

No texto de Werner Zotz, você observou que temos uma pessoa que fala
(no caso, um velho pajé que procura ensinar a vida de índio para o curumim):

‘Se (ele) não aprender, (eu) vou ter que ensinar...’

Temos, assim, o velho pajé, que fala (primeira pessoa). O velho pajé fala do curumim (ele, terceira pessoa). Eu, ele são pronomes que indicam as pessoas do discurso (pronomes pessoais).

Outros pronomes podem indicar diferentes relações. Observe os exemplos.

Este velho pajé.

Aquele velho pajé.

Este, aquele indicam a posição de um ser em relação às pessoas do discurso. São pronomes demonstrativos.”

O que temos aqui é um “apagamento” da 2ª pessoa do discurso. Quando se dirigem ao aluno/leitor, os autores usam você, mas ao explicarem as pessoas do discurso (pronomes pessoais), citam eu e ele somente e, logo a seguir, apresentam os pronomes demonstrativos, como se não existisse pronome algum que ocupasse o “lugar” de 2ª pessoa.

Por fim, Tesoto e Discini (1994, p. 194) apresentam tu e vós como os pronomes de 2ª pessoa.

3.  Conclusão

A questão que se mostrou de forma mais contraditória na maioria dos livros foi em relação à segunda pessoa do discurso. Todos os autores apresentam apenas tu e vós como segunda pessoa gramatical, mas dirigem-se ao leitor-aluno utilizando o pronome você. Somente Soares (1996) apresenta tu-você, vós-vocês como formas coexistentes.

Para grande parte de professores de língua materna e autores de livros didáticos, essa questão parece não estar resolvida. No entanto, os falante de português de muitas regiões do país já incorporaram os pronomes você e vocês como os de segunda pessoa do caso reto, abandonando as formas tu e vós em sua fala. Em algumas regiões em que o pronome tu ainda é utilizado, quase sempre o verbo, que deveria concordar com ele, é conjugado na terceira pessoa.

Houve uma mudança, já há algum tempo, quanto ao uso dos pronomes você e vocês como substitutos de tu  e vós. Não vejo razões claras para os autores de livros didáticos e para a escola não aceitarem essa mudança.

O conteúdo concordância verbal deveria ser trabalhado em todas as séries por ser de fundamental importância para as produções textuais (de língua oral e escrita) dos alunos. O problema está na forma predominantemente prescritiva, como tem sido trabalhado na maioria das vezes, e que não está garantindo a utilização desse conhecimento pelos alunos em suas produções, mesmo depois de terem freqüentado a escola por vários anos. Os estudos de sociolingüística e de lingüística aplicada já têm apontado alternativas para esse tipo de ensino.

Os livros didáticos não abordam os aspectos de concordância das variedades mais populares e não tratam devidamente da língua oral como demonstra Marcuschi (1997).

Os autores perdem, assim, oportunidades excelentes para fazer com que os alunos despertem sua percepção sobre o uso da língua e o papel do falante em sociedade, sobre a adequação do uso de determinada variedade em cada situação e sua apreciação social e, principalmente, sobre os valores atribuídos socialmente às variedades da língua, que não a padrão. É nesse sentido que Gnerre (1987: 4) diz que: “uma variedade lingüística ‘vale’ o que ‘valem’ na sociedade os seus falantes, isto é, vale como reflexo do poder e da autoridade que eles têm nas relações econômicas e sociais”.

Para conseguir essa percepção por parte dos alunos, não se poderia propor um ou outro exercício isolado, e não poderia haver posturas preconceituosas por parte dos autores de livros didáticos, dos professores, nem dos alunos. Mas, trabalhar cotidianamente com essas questões pode surtir bons resultados, como revela Franchi (1984).

RESUMO:

Este trabalho teve por objetivo investigar a abordagem de ensino de gramática predominante nas aulas de português de 5ª série. Para isso foram analisados 12 livros didáticos dos quais foram selecionados o conteúdo gramatical: concordância verbal. Concluiu-se que o tipo de ensino de gramática predominante nesses livros é o prescritivo.

PALAVRAS-CHAVE:

ensino de gramática; concordância verbal; livros didáticos.

ANEXO

Relação dos livros didáticos analisados

 


BASSI, C. M. e LEITE, M.  Português: leitura e expressão.  São Paulo : Atual, 1996.

BOURGOGNE, C. V. B. e SILVA, L.S.  Interação e transformação: Língua Portuguesa.  São Paulo, Ed. do Brasil, 1996.

CÓCCO, M. F. e HAILER, M. A.  ALP - Análise, Linguagem e Pensamento: a diversidade de textos numa proposta socioconstrutivista.  São Paulo : FTD, 1993.

FARACO, C. E. e MOURA, F. M.  Linguagem nova.  São Paulo : Ática, 1995.

FERREIRA, G. e ALMEIDA, M. A.  Falando a mesma língua: Português.  São Paulo : FTD, 1994.

GONÇALVES, M. S. e RIOS, R.  Português em outras palavras.  São Paulo : Scipione, 1997.

LOPES, V. e LARA, A.  Tudo da trama tudo dá trama.  Belo Horizonte : Dimensão, 1997.

LUFT, C. P. e CORREA, M. H.  A palavra é sua língua portuguesa.  Ed. rev. e ampl.  São Paulo : Scipione, 1996.

MAGALHÃES, R. e CARDOSO, C. M.  Palavra chama palavra.  São Paulo : Ed. do Brasil, 1994.

NICOLA, J. e INFANTE, U.  Português: palavras e idéias. 6ª ed.  São Paulo : Scipione, 1997.

SOARES, M.  Português através de textos. 3ª ed.  São Paulo : Moderna, 1996.

TESOTO, L. e DISCINI, N.  Novo texto e contexto.  São Paulo : Ed. do Brasil, 1994.


 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FRANCHI, E. (1984)  E as crianças eram difíceis: a redação na escola.  São Paulo : Martins Fontes, 1984.

GNERRE, M. (1987)  Linguagem, escrita e poder.  São Paulo : Martins Fontes, 1987.

MARCUSCHI, L. A.  (1997)  Concepção de língua falada nos manuais de português de 1º e 2º graus: uma visão crítica.  Campinas, Trabalhos de Lingüística Aplicada, n. 30, pp. 39-79, jul./ dez., 1997.

RODRIGUES, R. H. D.  Ensino de gramática em livros didáticos de português para 5ª série.  Taubaté/SP : UNITAU/Departamento de Ciências Sociais e Letras, 1999. 143p.  (Dissertação em Lingüística Aplicada).

Soares, Magda.(1992)  Linguagem e escola: uma perspectiva social. 9ª ed.  São Paulo : Ática, 1992. (Série Fundamentos).

Staub, Augostinus. (1987)  Perguntas e afirmações que devem ser analisadas.  IN:  Kirst, Marta e Clemente, Elvo (org.)   Lingüística aplicada ao ensino de português.  Porto Alegre : Mercado Aberto, 1987. (Série Novas Perspectivas Lingüísticas) pp. 17-31.