A PARÓDIA NOS BASTIDORES DA ESCOLA, NOS BASTIDORES DO PALCO

Iriane Gonçales Gerzeli (G-UEL)

Janaína Gabriel da Silva Kami (G-UEL)

Jerusa de Paula Barrichello (G-UEL)

Maria Beatriz Pacca (PG-UNESP/ Assis)

Martha Gonçalves (UEL)

 

ABSTRACT: This paper analyses parody as an instrument of socio-ideologic criticism. The research which led to it was undertaken in the Festival da Paródia, a part of the “Pontes para o texto: leitura e produção” extension project, which developes writing activities in secondary schools. We describe the use of parody as a stimulus for student writing which dismistifies prejudice against creativity and humor in class. We also give attention to theoretical aspects of parody. 

 

 

KEYWORDS: writing, humor, criticism, parody.

 

0.        Introdução

Pontes para o texto: leitura e produção. Este é o título atual de um projeto de extensão que já tem mais de 10 anos de atuação em escolas públicas de Ensino Médio. Vinculado ao Departamento de Letras Vernáculas e Clássicas da Universidade Estadual de Londrina, o projeto tem como objetivo a produção de texto a partir da leitura. Seu funcionamento envolve professores supervisores, estagiários e alunos da rede pública, que trabalham juntos durante o período de um ano letivo.

Aos supervisores cabe fornecer material teórico-metodológico para as aulas que serão ministradas semanalmente, além de acompanhar o desempenho dos estagiários nas escolas. Para isso, reúnem-se periodicamente para atualizar o referencial teórico e comentar o andamento das aulas.

Os estagiários – graduandos de Letras da UEL – são de fato os regentes das classes durante as duas aulas geminadas que ministram. Para isso, devem se preparar adequadamente, a partir das orientações dos supervisores.

Tais encontros semanais são um espaço frutífero, onde professores e estagiários discutem e trocam idéias, além de comentar as situações vividas em sala de aula. Os resultados desta experiência concreta têm sido muito bons, segundo depoimentos colhidos durante uma pesquisa recente entre ex-alunos anos depois de terem trabalhado no projeto.

As orientações sugerem temas como tipologia textual, argumentação, intertextualidade, conceitos de temas e figuras, entre outros. Esses assuntos são abordados dentro de uma metodologia fixa: texto motivador, objetivos, motivação, desenvolvimento. Só então o aluno fará uma produção textual, relacionada ao assunto daquela aula.

Acredita-se que a manutenção do Pontes para o texto: leitura e produção tem ocorrido por diversos fatores. Primeiro pela credibilidade já estabelecida na sociedade local. Além disso, alunos que participaram das aulas nos bancos da escola pública tornaram-se graduandos de Letras e buscaram o projeto para atuarem como estagiários. Este fenômeno demonstra uma continuidade nos nossos propósitos. Por fim, a realização do Festival de Paródias, ligado ao projeto, tem sido um evento bastante motivador para todos os participantes.

O Festival propõe um concurso com textos parodiados a partir de originais narrativos e poéticos, e dele podem participar alunos de toda a rede pública. Os concursos são interessantes e concorridos, mas, sobretudo, demonstram que a produção textual na escola pode ir além de suas quatro paredes.

               

1.        Pressupostos Teóricos

 

O campo de discussão em torno da paródia será sempre muito vasto. O enfoque, nesse artigo, pretende ser portanto objetivo e didático, centrando-se no caráter de atualização que ela detém. A par disto, a paródia analisada no contexto de um evento – o Festival da Paródia -,  promovido por um projeto de extensão -  Pontes para o texto: leitura e produção –, situação na qual se apresenta como um texto motivador para a produção textual em sala de aula.

Nesse contexto, certas características da paródia devem ser discutidas, marcando um posicionamento diante dos aspectos teóricos que envolvem tal tipo de texto. Num primeiro momento há que se notar a origem etimológica da palavra porque os radicais gregos que a compõem estão relacionados ao seu percurso histórico e determinam seu significado. Um deles é evidente e explica as origens literárias da paródia. Trata-se do radical odos, que nos remete à ode, definida como “uma composição poética de caráter lírico, composta de estrofes simétricas” (Ferreira, 1999, p. 1433). Quanto ao radical para, dois significados se delineiam. O primeiro, mais mencionado, remete à idéia de contraste ou oposição a. Todavia, a origem etimológica se estende a partir de um segundo significado do mesmo radical: ao longo de, ao lado de, sugerindo acordo, intimidade, cumplicidade mesmo. Tal significado está presente em expressões como paramédicos, parapsicólogos, paramilitares, termos modernos que designam aqueles que trabalham ao lado de profissionais, complementando sua atuação, acrescentando algo mais. Quanto à paródia, esse segundo significado acrescenta-lhe um novo enfoque, ampliando seu alcance pragmático e fazendo dela um gênero moderno, explorado em diversas manifestações culturais na atualidade. Desse modo, o caráter de atualização se faz presente, não impedindo e nem destruindo o potencial da paródia como texto que contesta e critica, mas que também repete, embora com diferença.

As origens históricas da paródia nos remetem ao conceito de carnavalização e às suas relações com a comédia e com o riso. Voltamos assim à Idade Média, uma época rica em conhecimento, em descobertas fundamentais para a humanidade. Ao lado disso, porém, o regime feudal e o poder da Igreja ditavam comportamentos marcados, que não incluíam o riso e o cômico. É nessa época, entretanto, que moram os melhores momentos das manifestações populares de alegria, totalmente produzidas e voltadas para o povo. Daí nasce a festa máxima da cultura popular: o carnaval.

A paródia evolui como uma forma de arte de caráter literário, bem como a teoria  de carnavalização de Bakhtin, a partir desse ambiente popular. Segundo o autor, a situação do cômico e do riso medievais tem uma função específica, ou seja, a de oposição a uma cultura oficial (1993, p.3-4). Assim o conceito de carnavalização valoriza formas marginais de manifestações culturais, conduzindo-as a um centro de interesse momentâneo e passageiro. Tal caráter é observado ainda no carnaval de hoje: a inversão de papéis, numa grande paródia que dura quatro dias.

Josef (1980), ao definir a paródia como “uma das linguagens da modernidade” que corta a linguagem convencional invertendo o significado de seus elementos (p. 54), faz menção ao aspecto de crítica e contestação inerente ao caráter dialógico presente no texto paródico.

Entender a paródia como uma das formas de carnavalização significa atribuir-lhe o poder de recusar e de esvaziar o que é sacralizado. Assim, no cenário moderno o valor da paródia apresenta-se positivo porque “... mata para fazer brotar novamente a criação. Recusa e esvazia o modelo original para recriar um modelo que lhe é próprio” (Aragão, 1980, p.20).

Interessantes exemplos desse processo são as chanchadas da Atlântida, produções do cinema brasileiro nas décadas de 40 e 50 do século passado. Grandes produções de Hoolywood como o filme bíblico “Sansão e Dalila” ou faroeste clássico “Matar ou Morrer” são desmistificados, não só em seus temas, mas também em relação ao modo americano de fazer cinema que se impunha, em paródias como “Nem Sansão Nem Dalila”  e “Matar ou Correr”, filmes de grande aceitação popular lançados estrategicamente na época de carnaval. Tais exemplos apontam para as duas características da paródia, presentes desde a Idade Média: as origens no conceito bakhtiniano de carnavalização e o fato de ser uma forma de arte feita pelo povo e para o povo.

Entretanto permanecem em nossa sociedade, em pleno século XXI, alguns ranços da atitude medieval diante da relação seriedade/riso. Vale lembrar que o riso é parte de uma cadeia, procedendo do cômico: esse possibilita o riso, manifestado na presença do humor. Ziraldo tem a palavra quando se fala de humor: “Na verdade, humor é uma análise crítica do homem e da vida. (...) Humor é uma forma de tirar a roupa da mentira e seu êxito está na alegria que ele provoca pela descoberta inesperada da verdade” (em entrevista à revista Veja,  31/12/69). Hoje, são evidentes inúmeros valores atribuídos ao humor e ao riso, inclusive terapêuticos. Através deles, aprende-se a ler o mundo e a entender o significado da crítica e da contestação de conceitos preestabelecidos.

A paródia foi escolhida, portanto, para o trabalho escolar com a produção de texto sob a forma de um Festival. Nesse contexto, o aluno pode ultrapassar as paredes da sala de aula e chegar ao palco, elegendo muitos interlocutores para ouvir sua voz. Como declarou um desses alunos – autores: “Eu vi na paródia uma forma de dizer o que sinto”.

Os dados a seguir mostram atividades desenvolvidas no contexto do Festival e confirmam que rir na escola pode ser divertido e produtivo.

 

2.        Análise de dados

No acervo do Festival de Paródias, pode ser percebido que as paródias realizadas pelos alunos participantes exercem o papel de subverter o texto original, questionando ideologias, padrões de comportamento e costumes. Os autores se utilizam dos elementos presentes nos textos originais e atualizam personagens, tempo e espaço conforme seus objetivos finais: criticar, questionar, denunciar ou simplesmente provocar o riso.

Por se notar a preferência por temáticas específicas, buscou-se dados para um levantamento de temas incidentes no acervo do Festival. A partir disto, foi possível construir significados sobre os resultados obtidos. Foram definidas quatro características de abordagens, consideradas como temas: social, política, comportamental e escolar. Criou-se uma quinta categoria, atemática, para as paródias que não se enquadrassem nos temas anteriores.

Dos 137 textos analisados, somente quatro – uma narrativa e três músicas – foram considerados atemáticos, representando 3% do total analisado. Estes textos apresentaram-se densos na intertextualidade, com a atualização de personagens e de situações que se encaixam em cenários identificáveis pelos leitores, mas subvertendo a realidade conhecida.

Enquanto 49 abordaram temas de caráter social, significando 36%, 48 trataram de temas comportamentais, representando 35%. Este resultado sugere que o aluno-autor é consciente dos problemas sociais que afligem a sociedade na qual ele está inserido.

             A temática política está presente em 16% das paródias, aparecendo com mais freqüência em períodos eleitorais. Os alunos dão destaque em suas criações à corrupção e às mentiras dos políticos brasileiros, além das incertezas e dos medos de um povo governado por tais tipos de profissionais.

             Os textos classificados como sociais abrangeram temas como fome, guerra, violência, drogas, baixos salários, desemprego, problemas de moradia. Nota-se uma certa dificuldade em selecionar textos com doses de humor, talvez pelo fato de o autor não conseguir se afastar do problema social a ponto de vê-lo de forma crítica, o que geraria humor e ironia.

             Foram consideradas comportamentais as paródias cuja temática não envolvia diretamente questões do ponto de vista social, e sim temas como beleza, luxo, modismos, desilusão e traição amorosa, relação empregado/patrão, religião e tédio em relação à vida.

             A escola não poderia ficar ausente dos textos dos Festivais, afinal este universo é parte do cotidiano dos alunos. Em tais produções o humor é uma constante e é através da caricatura que são retratadas as referências mais específicas: professores, colegas de sala, notas, provas e os problemas cotidianos dos adolescentes do Ensino Médio.

             É possível estabelecer relações entre os temas utilizados (social, político, comportamental, escolar e atemática) e os tipos de texto: música, poesia e narrativas. Na abordagem social foi constatada a predominância da música (22 textos) e da poesia (18 textos), perfazendo um relativo equilíbrio percentual: 45% e 37%, respectivamente. Os textos narrativos foram 9 (18%).

             No geral, houve um equilíbrio na preferência dos alunos pelas categorias, oscilando entre a música e a narração. Isto se dá em função da facilidade de adaptação da música em virtude da presença da letra e do ritmo. Além disso, os jovens já têm uma predileção, comum da idade e do meio social, pela música. Entretanto foi tarefa do professor a seleção dos textos musicais, interferindo de forma positiva no desenvolvimento do gosto musical, artístico e cultural de seus alunos.

             Uma certa familiaridade com a estrutura narrativa e a presença de personagens e de situações que facilitam a adaptação do enredo levaram boa parte dos alunos a se inspirarem em textos desta categoria. Tal escolha predominou sobretudo na abordagem comportamental. Já na abordagem social foi mais recorrente a estrutura da música.

             Devido a essas ocorrências, optou-se por analisar duas paródias: a primeira O Clone Perfeito, referente à música de Alceu Valença, Ciranda da Rosa Vermelha e a segunda, Só o seu salário nos interessa, tendo como texto-fonte a fábula O Leão e os Outros Animais, de La Fontaine.

 

2.1.    Abordagem Social

             A paródia O Clone Perfeito é considerada como social porque se trata de uma crítica moral e ética, pertinente aos questionamentos da sociedade quanto ao assunto clonagem. A paródia foi analisada a partir das categorias descritivas: intertextualidade, crítica, criatividade e humor.

             A intertextualidade faz referência à clonagem, surgida em 1997, quando o cientista escocês Ian Wilmut clonou a ovelha Dolly.

             Já a crítica desta paródia decorre do tema e de suas implicações sociais. Houve a preocupação de que a clonagem animal estaria muito perto da clonagem humana. Tal fato gerou muita controvérsia no seio da religião, da ciência e da sociedade. As premissas básicas dessa discussão foram sobre o homem estar violando a procriação natural e a possível interferência da clonagem no processo de formação da personalidade do indivíduo clonado. O texto faz uma crítica religiosa: Sou igualzinha, perfeitinha, bonitinha, mas quero viver sozinha do jeito que Deus criou. Nestes versos indica-se que o ser clonado gostaria de ser uma criação de Deus. Em seguida os autores também criticam a ciência: Nem o espelho me acalma! Oh ciência! Que horror! Nesta passagem, o próprio clone questiona sua existência e demonstra desespero quanto à sua situação, culpando e ao mesmo tempo invocando a ciência, responsável pela sua criação.

             No trecho Já não sei quem é o clone, se é ela ou se sou eu! , observa-se um problema de identidade, pois a ovelha não consegue se ver como um ser único, com personalidade própria. A criatividade e o humor se estabelecem pela escolha da música “Ciranda da rosa vermelha” para tratar do assunto clonagem.

             Este tema continua atual, pois há um grande questionamento com a clonagem humana devido a preocupações de ordem religiosa, bioética e psicológica. No Brasil, o assunto, além de ser discutido no meio científico e jornalístico, está sendo veiculado pela mídia para toda a população através da trama da novela “O Clone”. Esta novela apresenta os problemas vividos tanto pelo ser humano clonado como pelo cientista que proporcionou esta experiência.

                    

2.2.    Abordagem Comportamental

             A paródia “Só o seu Salário nos Interessa” tem uma abordagem comportamental, pois trata-se de um comportamento individual de uma pessoa diante de situações ou fatos. Ela também será analisada a partir das seguintes categorias: intertextualidade, crítica, criatividade e humor.

             A intertextualidade presente no texto refere-se ao discurso de alguns pastores para com seu público, que tem como objetivo de convencê-lo a dar dinheiro para a igreja em nome de Deus. Isto pode ser evidenciado em: “(...) Tomou a primeira e orou: “Deixe Jesus tocar em vocês, o dinheiro é uma ferramenta sagrada usada na obra de Deus e isso não se deve contestar; tomo pois esta parte para mim, por ter feito a oração (...)”.

             A crítica é recorrente durante toda a narrativa, visto que a todo momento o autor coloca o personagem pastor explorando financeiramente seus parceiros. Percebe-se o tom crítico logo no título do texto “Só o seu Salário nos Interessa”; o autor, portanto, desde o início participa seus leitores da intenção do protagonista. Observa-se que a moral da história “A fé remove montanhas, traz poder e principalmente grana”, parodiando o provérbio religioso “A fé remove montanhas”, é uma reafirmação da crítica na paródia, ampliando seu sentido.

             A criatividade e o humor desta paródia aparecem pelo fato de a novilha, ex-luterana, a cabra, ex-presbiteriana, e a ovelha, ex-católica, serem persuadidas pelo pastor, que as exploram financeiramente, prometendo a paz divina. O tema, portanto, é a exploração feita por algumas seitas religiosas. A alusão ao nome de uma determinada igreja é muito clara: “Deus é o Valor”. A substituição da palavra “Senhor” por “Valor” sintetiza o tema e estabelece uma relação imediata com o título a partir da palavra “salário”. No mais, a estrutura da fábula completa as referências possíveis trata-se da fábula de La Fontaine “O Leão e os outros Animais” na qual o leão, com o poder de suas unhas, divide uma presa em quatro partes, das quais todas lhe pertencem. O aluno-autor da paródia mantém tal estrutura, acrescentando alguns elementos que atualizam o texto paródico. A adaptação continua na relação unhas (do leão) versus poder oratório, significando ao mesmo tempo persuasão e oração. O poder, na fábula, é simbolizado pelas unhas do leão e, na paródia, pela “oração”.

             Fica evidente a preocupação do aluno-autor com sua participação como ser social, consciente de seu papel como cidadão e de seus direitos como tal. O evento “Festival da Paródia”, promovido pelo projeto de extensão, é uma excelente maneira de os alunos se fazerem ouvir.

 

3.        Conclusão

             Este Grupo de Trabalho pretendeu apresentar alguns resultados de um percurso. Nossos objetivos foram alcançados e as atividades com o Festival, interrompidas durante dois anos, estão sendo retomadas porque continuamos acreditando na potencialidade do jovem não só em relação ao domínio da língua, que o torna capaz de escrever paródias criativas e bem-humoradas, mas também quanto à sua identificação da realidade em que vive, abordando em seus textos os temas que o instigam. Este artigo se encerra com um depoimento que, por si mesmo, sintetiza e comprova toda uma pesquisa:

             Eu vi na paródia uma forma de dizer o que penso e sinto. Não adianta eu sair por aí criticando o governo porque sou apenas um garoto e ninguém vai me dar ouvidos. Mas, como muitos brasileiros, vejo os pais dos meus amigos perderem o emprego, ouço meus pais se queixarem da vida. Fiz um desabafo. (Bruno dos Santos, 16 anos)    

 

RESUMO: A paródia é analisada, neste trabalho, como instrumento de crítica sócio-ideológica. A pesquisa desenvolveu-se a partir de um evento, o Festival da Paródia, vinculado a um projeto de extensão, “Pontes para o texto: leitura e produção”, que desenvolve atividades de produção textual no Ensino Médio. A experiência com a paródia é relatada, considerando os aspectos teóricos envolvidos e apresentando resultados que comprovam a eficiência do texto paródico para desmistificar preconceitos, com humor e criatividade.

 

PALAVRAS-CHAVE: Produção Textual, humor, crítica, paródia.

ANEXO

O Clone Perfeito

 

Acabaram de inventar uma clonagem

de uma uma ovelha que parece que sou eu.

Sou igualzinha, perfeitinha, bonitinha,

mas quero viver sozinha do jeito que Deus criou.

 

Sou clone de ovelha!

Oh meu Deus do céu!

Sou clonagem igualzinha e hei de ser até morrer.

 

Quando eu vejo que não sou igual às outras,

eu fico triste tenho dor no coração,

que toma o pêlo o meu corpo e não tem alma.

Nem o espelho me acalma!

Oh ciência! Que horror!

 

Sou clone de ovelha!

Oh meu Deus do céu!

Já não sei quem é o clone,

Se é ela ou se sou eu!

(5º Concurso de Paródias, Londrina, 1995)

 

Só o seu salário nos interessa

 

             Relatam que em tempos atrás, a novilha, ex-luterana, a cabra, ex-presbiteriana e a mansa ovelha, ex-católica, uniram-se em sociedade com o senhor Leão, fundador da Igreja Deus é o Valor. Teriam em comum o lucro arrecadado das oferendas e dos dízimos e as perdas. Conseguiu a cabra, ex-presbiteriana e atual membro da Igreja Deus é o Valor, apanhar um veado católico. Foram chamados os obreiros, juntamente com o senhor Leão, fundador da Igreja Deus é o Valor, para receberem o seu quinhão. O senhor Leão, contando com seu poder oratório, então orou:

             Somos quatro que temos direito. Ao orar isto, dividiu o salário do veado católico em quatro partes. Tomou a primeira e orou: “Deixe Jesus tocar em vocês, o dinheiro é uma ferramenta sagrada usada na obra de Deus e isso não se deve contestar, tomo pois esta parte para mim, por ter feito a oração. É um pagamento justo. A segunda também me pertence por direito, pois quanto mais se dá à Igreja, mais se recebe. Tudo que você der, receberá depois em dobro. Exijo a terceira, pois vocês não devem perder a oportunidade de ser sócios de Deus. Coloque-se à sua disposição com tudo o que você tem e comece a participar de tudo que Deus tem também. E alguém desejar a quarta – ora o senhor Leão com mais glória – será condenado pela luz de Deus, pois as doações são necessárias para ofender o diabo, humilhar o miserável. Quanto mais altas, maior a possibilidade de vitória. A paz esteja com vocês, irmãos, está encerrada a partilha dos bens.”

Moral: A FÉ REMOVE MONTANHAS, TRAZ PODER E PRINCIPALMENTE GRANA.      

(3º Concurso de Paródias, Londrina, 1995)

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ARAGÃO, M.L.P.de. A Paródia em “Força do Destino”. Revista Tempo Brasileiro, n.62, p.18-28, 1980.

BAKHTIN, M. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora UnB, 1993.

FERREIRA, A. B. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

HUTCHEON, L. Uma Teoria da Paródia:  Ensinamentos das Formas de Arte do Século XX. Rio de Janeiro: Edições 70, 1985.

JOSEF, B. O espaço da paródia, o problema da intertextualidade e a carnavalização.  Revista tempo Brasileiro, n.62, p.53-70, 1980.