56º SEMINáRIO DO GEL - 2008
 
 Referência 
PAULA, Adriana de. DESENHO E ESCRITA: DUAS FORMAS DE MANIFESTAçãO DE UM QUERER-DIZER. In: SEMINÁRIO DO GEL, 56., 2008, Programação... São José do Rio Preto (SP): GEL, 2008. Disponível em: <http://www.gel.org.br/?resumo=3924-08>. Acesso em: dd.mmm.aaaa.
 
 Dados do trabalho 
Título:
DESENHO E ESCRITA: DUAS FORMAS DE MANIFESTAçãO DE UM QUERER-DIZER
Autor(es): ADRIANA DE PAULA - UNICAMP
Resumo:
O presente trabalho é fruto do acompanhamento longitudinal do processo de aquisição da escrita de M.L, autora de uma vasta produção de desenhos e textos escritos que se encontram arquivados no banco de dados do Projeto “A relevância teórica dos dados singulares no processo de aquisição da linguagem escrita”, desenvolvido desde 1992 no IEL/Unicamp. A partir da observação de uma rica produção de desenhos e textos escritos, o objetivo desse trabalho é apresentar os resultados de minha dissertação de Mestrado defendida em 2007, que procurou traçar considerações sobre a relação entre o desenho e a escrita ao longo do percurso de aquisição da escrita da autora dessas produções. Para tanto, analisamos centenas de textos escritos e desenhos, buscando elementos que fossem comuns aos dois tipos de produção.
Para sustentar a análise dos dados buscamos como referencial teórico uma concepção sócio-histórica de linguagem (cf. Franchi, 1987 e Bakhtin/Volochínov, 1929), por acreditarmos que essa concepção nos permite visualizar a relação entre sujeito e linguagem, ao mesmo tempo em que revela o modo como cada sujeito em particular vai construindo essa relação.
Compatível com essa concepção de linguagem, o conceito de gênero do discurso formulado por Bakhtin (1953/1979) foi evocado ao longo do trabalho para sistematizar a análise dos dados, fornecendo elementos para a formulação de hipóteses sobre a própria escolha de M.L. por determinados gêneros.
Do ponto de vista metodológico, baseamo-nos no paradigma indiciário de investigação (cf. Ginzburg, 1986, Abaurre et alli, 1992, 1997), já que buscamos a identificação de eventos singulares de escrita que pudessem ser tomados como marcas, como indícios da complexa relação que M.L. estabeleceu com a linguagem.
Através da observação das produções de M.L., foi possível reconstituir mais do que um percurso pelo desenho e pela escrita, mas também todo um trabalho de exploração dessas linguagens capaz de nos mostrar o percurso de manifestação de um dizer. À medida que a linguagem e a escrita de M.L. foram evoluindo, seus desenhos também foram sofrendo alterações, não só em relação aos traços mas também em relação à função que desempenham em suas produções. Se inicialmente era o desenho o principal espaço de elaboração de seu querer-dizer, num segundo momento, há um imbricamento dessas duas linguagens e é através da exploração conjunta de desenho e escrita que M.L. vai se manifestar para, num momento posterior, expressar predominantemente através da escrita aquilo que há muito já vinha dizendo com o auxílio de seus desenhos.
É importante ressaltar que, ao longo de todo esse processo, o que está em jogo é a vontade discursiva de M.L., ou seja, a relação entre escrita e desenho em sua produção está atrelada à sua necessidade de se expressar. Desse modo, a autonomia da escrita ocorrerá quando aquilo que ela pretende dizer já não pode mais ser dito através de desenhos e, à medida que seu olhar vai se tornando cada vez mais crítico e sua escrita vai se sofisticando, é a escrita que passará a ser sua principal forma de manifestação.Vale lembrar que não estamos aqui hierarquizando nem a escrita, nem o desenho. O que pretendemos mostrar é que essas duas linguagens foram fundamentais para que M.L. se constituísse como sujeito de linguagem, chegando a escolher que linguagem usar de acordo com os efeitos que pretendia promover em seu interlocutor.