57º SEMINáRIO DO GEL - 2009
 
 Referência 
JUBRAN, Clélia Cândida Abreu Spinardi. A FORMULAICIDADE DE REPETIçõES COMO TRAçO EVOCADOR DE TRADIçãO DISCURSIVA. In: SEMINÁRIO DO GEL, 57., 2009, Programação... Ribeirão Preto (SP): GEL, 2009. Disponível em: <http://www.gel.org.br/?resumo=5389-09>. Acesso em: dd.mmm.aaaa.
 
 Dados do trabalho 
Título:
A FORMULAICIDADE DE REPETIçõES COMO TRAçO EVOCADOR DE TRADIçãO DISCURSIVA
Autor(es): CLéLIA CâNDIDA ABREU SPINARDI JUBRAN - UNESP
Resumo:
Nosso objetivo é demonstrar que, ao assumirem uma natureza formulaica, repetições de vária ordem constituem-se como um processo de construção textual que particulariza e, portanto, evoca uma determinada Tradição Discursiva (TD).
A concepção de TD destaca a itermediação das práticas sociais de interação na produção textual, pois se assenta na consideração de que a atividade verbal, com um objetivo comunicativo concreto, atravessa dois filtros concomitantes, para chegar ao produto dessa atividade, o enunciado. O primeiro corresponde à língua, como sistema gramatical e lexical, e o segundo às Tradições Discursivas. O traço definidor das TDs é a relação de um texto, em dado momento da história, com outros textos anteriores, com repetição total ou parcial deles, ou de uma forma textual, ou de uma maneira peculiar de escrever ou falar. A repetição, por estabelecer essa relação de união entre atualização e tradição, tem por contrapartida a evocação de TDs: gêneros textuais, formas lingüísticas, elementos de conteúdo que filiam um texto a uma família de textos com características comuns.
Nessa caracterização de TD estão explicitadas diferentes modalidades de repetição, das quais nos interessam a reiteração de uma forma textual em um mesmo gênero e a produção de segmentos textuais idênticos ou semelhantes em um conjunto de textos do mesmo gênero.
Associado ao conceito de repetição como recorrência de uma estrutura textual ou de elementos lingüísticos no mesmo gênero textual, está o de formulaicidade, já que essa recorrência aponta para uma padronização de expressão e de construção textual. Tal padronização apresenta graus variáveis, pois a repetição pode ser integral, gerando automatismos ou fixidez de estruturação do texto, mas pode ocorrer com transformações diversas.
Os conceitos acima fundamentam a análise de um corpus de Cartas de Administração Privada, dos séculos XVIII e início do XIX. São 19 Cartas de Aldeamento de Índios, escritas por religiosos incumbidos de administrar as aldeias de índios no entorno da vila de São Paulo. Os destinatários têm estatuto social hierarquicamente superior aos escreventes, que a eles prestam contas do que acontece nas aldeias sob sua jurisdição.
Os resultados das análises estão organizados em duas partes. Na primeira, focalizamos a estrutura textual das cartas, tendo observado que: a) na abertura, há o contato com o interlocutor, por meio de formas de tratamento, seguidas de uma referência ao objetivo da carta de atender à ordem do destinatário; b) no corpo, a carta assume a feição do gênero relatório, com justaposição linear das informações solicitadas, geralmente complementadas por outras informações sobre episódios e o cotidiano das aldeias; c) no fecho, o escrevente reitera sua predisposição de sempre corresponder a quaisquer solicitações do destinatário. Na segunda parte, o foco recai sobre as repetições de itens lexicais, formas de tratamento e sintagmas oracionais. Constatamos acentuada repetição de: a) forma de tratamento Vossa Excelência, demarcando a superioridade do destinatário; b) itens lexicais como vassalo, servo, criado, com os quais o escrevente se auto-qualifica, indiciando sua subordinação; c) verbos como ordenar e determinar, expressando ação imputada ao destinatário, e verbo obedecer, para as ações do escrevente; d) sintagmas oracionais estereotipados, referindo-se ao desejo do escrevente de ter muitas ocasiões para prestar serviços ao destinatário, bem como invocando a proteção de Deus para a sua saúde. Todos esses tipos de repetição indiciam a relação assimétrica entre os interlocutores.
Concluímos que a recorrência de uma forma fixa de construção textual e a repetição de dados elementos lingüísticos, associadas à sinalização de assimetria interacional, evocam TDs das Cartas de Administração Privada, materializando, nelas, condições enunciativas resultantes de acordos sociais, historicamente constituídos, que impõem normas de relacionamentos interpessoais e prescrevem a própria conduta verbal.
(Apoio: CNPq – Processo 301089/2007-8)