Diretoria 1997-1999 (UNESP – SÃO JOSÉ DO RIO PRETO)

Foto (da esquerda para a direita): Erotilde Goreti Pezatti, Roberto Gomes Camacho, Cristina Carneiro Rodrigues, Marize Mattos Dall’Áglio-Hattnher.

Presidente: Roberto Gomes Camacho

Vice-Presidente: Erotilde Goreti Pezatti

Secretária: Marize Mattos Dall’Aglio-Hattnher

Tesoureira: Cristina Carneiro Rodrigues

 

Leia e ouça a entrevista concedida pelo presidente da diretoria!

 

Fonte da foto: Rômulo Borim (IBILCE/UNESP).

ROBERTO GOMES CAMACHO

Professor Livre-docente da UNESP (São José do Rio Preto)

Em 13/06/2018.

 

1) O que significava o GEL para a Linguística de São Paulo e do Brasil no momento em que você participou de sua diretoria? Houve algum fato marcante ou curiosidade que gostaria de partilhar?

Estive duas vezes numa diretoria do GEL. Na primeira, a gestão 1985-1987, era Presidente o saudoso Ermínio Rodrigues; atuava na Vice-Presidência, Ismael Ângelo Cintra, o cargo de Secretário foi atribuído à Sylvia Jorge de Almeida Martins, professora de Língua Portuguesa. O Ismael e a Sylvia estão aposentados e o Ermínio tem muitos colegas na eternidade para discutir os caminhos da Linguística. Meu cargo na Diretoria era o de Tesoureiro. Uma curiosidade dessa gestão e também da seguinte, sob a presidência da colega Bernadete Abaurre, foi a de destinar o cargo de Vice-Presidente a um docente da Teoria Literária: aqui em Rio Preto, ao Ismael; lá no IEL, à Marisa Lajolo. Esse modo de constituição mostra bem como era significativa até então a participação dos colegas da literatura nos Seminários do GEL. Tanto era que, nessa gestão do Ermínio Rodrigues, de que participei como Tesoureiro, discutiu-se a possibilidade de acrescentar mais um L à sigla. O GEL seria GELL e, em vez de um Grupo de Estudos Linguísticos, que assim permanece desde o nascimento, seria, na sugestão encaminhada, um Grupo de Estudos Linguísticos e Literários. Por razões óbvias de tradição e de política acadêmica, a alteração não vingou; nem mesmo foi discutida como proposta em assembleia. Foi abatida em pleno nascedouro.

Foi na segunda vez em que atuei na Diretoria do GEL, na gestão 1997-1999, que exerci a Presidência; nessa ocasião, trabalharam comigo as colegas Erotilde Goreti Pezatti na Vice-Presidência, Marize Mattos Dall’Aglio-Hattnher na Secretaria, e Cristina Carneiro Rodrigues na Tesouraria. Uma diretoria, por assim dizer, “puro-sangue”, já que completamente constituída por linguistas. Nessa ocasião, a associação celebrava 30 anos de existência.

É curioso (não sei se a atual Diretoria se dá conta disso) que, nos aniversários de 30, 40 e, agora, no de 50 anos, a direção do GEL esteve sob a responsabilidade de docentes da UNESP de São José do Rio Preto. A rotatividade natural entre as diversas instituições públicas talvez justifique essa coincidência de 10 em 10 anos, tão certa como a passagem do Cometa Halley. A celebração do aniversário de uma associação científica não é apenas motivo de festa, mas é, sobretudo, um momento de reflexão metalinguística em que os pesquisadores se voltam para sua própria atuação na produção e na divulgação da pesquisa e para a discussão do papel da associação para a comunidade que ela representa.

2) Que papel o GEL poderia desempenhar hoje, diante dos desafios que você vislumbra para a Linguística (brasileira) contemporânea?

Penso que, como disciplina científica, a linguística tem enfrentado com naturalidade os desafios que lhe são impostos de esclarecer satisfatoriamente a natureza da linguagem. Sabemos que a identidade da linguagem não é consensual entre pesquisadores de diferentes concepções teóricas, especialmente a formalista e a funcionalista; mas essa divergência, desejável e salutar, faz parte da natureza das ciências, especialmente das ciências humanas, e é sempre desafiador encará-la como um respeito à opinião alheia.

Acho, no entanto, que o principal desafio é outro, de natureza política, e se refere, a meu ver, ao papel que devem desempenhar associações científicas, como o GEL, no enfrentamento da progressiva instalação de um verdadeiro golpe de Estado no país, que se iniciou com o impedimento ilegítimo da Presidenta Dilma Roussef e se conclui agora com a condenação sem provas do ex-presidente Lula, visando claramente inviabilizar sua candidatura às próximas eleições. Pior ainda é a instalação de uma política francamente neoliberal, algo parecido a uma bomba de efeito retardado detonada no passado, especialmente porque o próprio sistema econômico vem revendo atualmente, no mundo todo, as políticas ortodoxas do neoliberalismo, consideradas boas para o mercado e para o bolso dos investidores, mas nefastas para a população em geral, especialmente para a camada de baixa renda. Esse novo ciclo da história contemporânea afeta particularmente as próprias universidades públicas, que correm o risco de perder aos poucos a legitimidade fundada na ideia de autonomia do saber diante do Estado, legitimidade essa obtida a duras penas ao longo de sua história. É necessário refletir sobre como o modelo privatista que vem sendo aos poucos implantado afetará a ciência e a tecnologia do Estado de São Paulo e do Brasil; penso que o GEL e as demais associações científicas têm um papel importante a desempenhar como centros organizadores de uma reflexão e de uma ação política, especialmente porque está, na própria natureza de seus associados, a capacidade de denunciar as estratégias discursivas assumidas pelos responsáveis por essas políticas deletérias e, no que lhe couber, de propor medidas práticas capazes de provocar reação e combate a esse verdadeiro estado de exceção.

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