GEL+50 anos: PPG em Estudos Linguísticos (UNESP – São José do Rio Preto)

O GEL convidou a professora doutora Fabiana Komesu, coordenadora do programa de pós-graduação em Estudos Linguísticos, do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas, da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), a colaborar na identificação de desafios acadêmico-científicos para o futuro da associação.

 

Confira as respostas da coordenadora!

 

Fabiana Komesu em 11/07/2018. Foto: Rômulo Borim.

 

FABIANA KOMESU

Professora Doutora da UNESP (São José do Rio Preto)

 

1) Que papel o GEL poderia desempenhar hoje, diante dos desafios que você enxerga para a Linguística (brasileira) contemporânea?

Acredito que o GEL, como Associação, tem na atualidade o desafio de mostrar, ao mesmo tempo, à comunidade dos associados e à sociedade brasileira, a relevância social dos estudos da linguagem. A comunidade científica não tem como confiar essa tarefa à chamada grande mídia do Brasil, que, como se sabe, quase não cede espaço para fazer circular qualquer discussão científica sobre linguagem, em jornais e revistas de ampla circulação ou mesmo em noticiários de grande alcance. Quando há menção à produção de saber científico, quase sempre, trata-se de pesquisas em outras áreas de conhecimento. Ou, ainda, a menção à produção de saber, de maneira particularizada, aquela produzida na esfera de universidades e de centros de pesquisa públicos, tem aparecido, nesses veículos, como ineficaz, como se o reconhecimento de ineficácia fosse a causa e não uma das consequências de agendas políticas que têm, na crise, nos sucessivos cortes no orçamento, enfim, no processo de sucateamento, seu modo de gestão e funcionamento. As muitas possibilidades de investigação dos fenômenos da linguagem, com geração de benefícios para o desenvolvimento social, cultural e econômico, em favor de uma educação inclusiva e igualitária, em favor de uma formação acadêmica e profissional de qualidade, são ainda pouco visíveis ou invisíveis para a população em geral e para parte da própria comunidade científico-acadêmica. Apesar de esforços pontuais para reversão dessa imagem, os estudos da linguagem são ainda vistos como prescindíveis e dispensáveis, com pouca ou nenhuma necessidade de financiamento público ou privado, quando, na verdade, são estratégicos e deveriam ser prioritários porque estão na base da produção de conhecimento. Essa ausência de reconhecimento de importância não é “privilégio”, porém, de nossa área: é direcionado ao campo das Ciências Humanas, de maneira geral. Basta lembrar que no Portal e-cidadania, do Senado Federal, está em vigência consulta pública para extinção de cursos de humanas (Filosofia, História, Geografia, Sociologia, Artes e Artes Cênicas) em universidades públicas, sob alegação que seriam “cursos baratos que facilmente poderão ser realizados em universidade privadas” e que poderiam ser cursados presencialmente ou a distância em qualquer outra instituição paga. A extinção de cursos como esses beneficiaria os considerados “cursos de linha (medicina, direito, engenharia e outros)”, para os quais, pressupõe-se, é que deveria haver financiamento com recursos públicos. Até o dia 02/7/2018, essa consulta pública já havia recebido mais de sete mil menções de apoio. Gostaria de pensar que esse número expressa o desconhecimento, por parte dos apoiadores, da relevância dessas áreas estratégicas para a formação crítica e a transformação da sociedade. Nesse caso, um trabalho de educação científica, de explicitação dos benefícios sociais decorrentes de pesquisas na área de Ciências Humanas, em geral, e na dos estudos da linguagem, em específico, poderia ser de utilidade para todos.
É, pois, em meio a esse cenário caracterizado por ausência de apoio da grande mídia, por sucessivos cortes no orçamento em Ciência e Tecnologia – em 2018, o orçamento nacional em Ciência e Tecnologia começou o ano 25% menor do que em 2017, valor correspondente a menos da metade do orçamento de há cinco anos –, por ausência de conhecimento da população em geral e de parte da própria comunidade científico-acadêmica sobre os benefícios e a relevância dos estudos da linguagem, que o GEL e outras associações científicas precisam se posicionar. Há também um processo de internacionalização em curso no Brasil, no qual a língua portuguesa brasileira e a literatura brasileira têm de negociar seu modo de existência, em meio à hegemonia de outras línguas e literaturas que são concebidas, até mesmo por brasileiros, como prioritárias na produção do conhecimento.

 

2) Que ações poderiam ser implantadas pelo GEL?

Iniciativas como o Pint of Science, festival de divulgação científica no mundo, com palestras gratuitas de pesquisadores, proferidas em bares e restaurantes, têm recebido cada vez mais adeptos (disponível em: < https://pintofscience.com.br/>). Em 2018, o evento aconteceu em 21 países do mundo. No Brasil, foram mais de 500 eventos, em 56 cidades. Seria possível pensar uma iniciativa como esta, apoiada pelo GEL, como “aquecimento” do Seminário? Em período que antecede o evento, na cidade sede, seria possível promover encontros como este, entre especialistas da linguagem e não especialistas? Além de bares e restaurantes, seria possível pensar a ocupação de outros lugares, como escolas públicas, praças de ampla circulação? O GEL poderia ainda se unir a outras associações de Linguística e Literatura, na promoção de eventos vinculados a esta ideia mais geral de popularização e divulgação dos estudos da linguagem. A pesquisa “Percepção pública da Ciência e Tecnologia no Brasil 2015” (disponível em: http://percepcaocti.cgee.org.br/wp-content/themes/cgee/files/sumario.pdf), publicada pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), destaca que, “para que ações de popularização científica e de educação em ciência sejam aprimoradas, é importante conhecer e analisar o grau de informação, o conhecimento geral, as atitudes e as visões da população brasileira sobre C&T.” A promoção de encontros com diferentes grupos sociais seria uma oportunidade de saber o que é sabido e o que ainda é desconhecido sobre o alcance dos estudos da linguagem. Apesar de uma atividade como esta parecer distante do fazer científico de um pesquisador, tem sido, cada vez mais, necessária, como modo de existência dos pesquisadores na contemporaneidade. É uma forma de discutir e demonstrar as implicações educacionais, culturais, políticas e éticas dos estudos da linguagem e de contribuir para estimular pessoas a seguirem carreira científica.

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