Diretoria 1977-1979

Presidente: Rodolfo Ilari

Vice-Presidente: Onosor Fonseca

Secretário: Ataliba Teixeira de Castilho

Tesoureiro: Carlos Franchi/ Jesus Antonio Durigan

Leia a entrevista feita com o presidente da diretoria!

RODOLFO ILARI

Professor Titular da UNICAMP

Em 28/07/2018.

Questões

1) O que significava o GEL para a Linguística de São Paulo e do Brasil no momento em que você participou de sua diretoria? Houve algum fato marcante ou curiosidade que gostaria de partilhar?

2) Que papel o GEL poderia desempenhar hoje, diante dos desafios que você vislumbra para a Linguística (brasileira) contemporânea?

Respostas

A presidente do GEL, professora Luciani Ester Tenani, pediu-me nestas últimas semanas que gravasse ou digitasse um breve depoimento sobre minha convivência passada nessa querida associação, que ainda me liga a tantos linguistas, paulistas e não.

Transgredindo a recomendação que recebi de dois professores de latim que foram importantes para minha vida (e que repetiam a todo momento “vá de res gerere, não de res gestae”), tento dar conta da tarefa nas próximas linhas, embora puxar pela memória não seja a esta altura uma coisa que faço bem. E estou escrevendo em vez de usar uma mensagem de voz, porque sou um conhecido desastre em matéria de celulares, assemelhados e similares.

Minha convivência com o GEL começou na década de 1970, e aconteceu com intensidade diferente e em três momentos separados no tempo; foi regular mas envolvente no início dos anos ’70, quando o GEL me acolheu como associado e me tornei frequentador assíduo de seus seminários; foi absolutamente intensa no final da mesma década, quando ocupei a presidência e organizei três seminários; e foi esporádica depois, quando voltei ocasionalmente aos seminários, e me vi perdido em meio a programações que ultrapassavam minhas possibilidades de aproveitamento, quer pelo número de participantes, quer pela diversificação extrema da própria linguística. A que mais interessa num depoimento de ex-presidente é a segunda, mas pode ser útil que eu diga algumas coisas também sobre a primeira e a terceira.

Ouvimos falar do GEL pela primeira vez em Campinas, por volta de 1972. O grupo do qual eu fazia parte (com Carlos Franchi, Carlos Vogt e Haquira Osakabe) tinha retornado da França a Campinas um ano antes com a incumbência de assumir de imediato um mestrado e uma graduação em linguística já em andamento, além de cuidar de uma escola de línguas estrangeiras que ensinava francês, inglês e alemão para todos os cursos da universidade (que deviam ser então uma dezena, bem menos do que hoje). Como se pode imaginar tínhamos que dar conta no dia-a-dia de uma infinidade de tarefas de organização, além das incumbências de ensino e pesquisa que são normais numa universidade já implantada, e o tempo para contatos com outros linguistas brasileiros era escasso. Mas quando alguém que não me lembro falou em GEL, resolvemos sair do canavial e conhecer. Isso aconteceu no seminário realizado em Bauru de que foi hospedeira a universidade do Sagrado Coração de Jesus, então dirigida por sua primeira diretora, a Irmã Arminda. Encontramos um ambiente agitado pela eleição do novo presidente, que acabou sendo o Izidoro Blickstein e não Cidmar Paes, e fomos vistos, sabe-se lá por que razão, como gerativistas, figuras que, à semelhança da mulher do guarda no provérbio francês, as pessoas achavam melhor cumprimentar de longe.
Mas nós não éramos gerativistas, e assim fizemos bons amigos, a começar pelo Ataliba Castilho, que na ocasião assinou como titular um monte de papéis burocráticos de que precisávamos para não ter nossos contratos cortados em Campinas. Graças a esses novos amigos, acabamos nos entrosando no grupo (que na época tinha realmente as dimensões de um grupo) no qual tinham presença forte os titulares da UNESP (Borba e Alceu Dias Lima, de Araraquara, Rafael Eugenio Hoyos-Andrade, de Assis, Ataliba de Castilho, de Marília…), além, evidentemente, do professor Isaac Nicolau Salum, que ocasionalmente segurava os associados depois da “reunião de negócios” para reconciliar publicamente dois colegas que haviam se desentendido. Lembro que essas reconciliações me transportavam para um mundo medieval e religioso, e me faziam lembrar de episódios e quadros célebres, como aquele em que o imperador Henrique IV foi ao Castelo de Canossa, para pedir perdão ao papa Gregório VII.

Tento me lembrar, além dos nomes, dos assuntos que circulavam pelo GEL naquela época. Falava-se já então de corpus, mas não era um corpus de dados linguísticos nem o Corpus Inscriptionum Latinarum do qual tinham ouvido falar (só ouvido falar) todos os ex-alunos da USP, e sim uma coleção de textos básicos da linguística que deveriam ser traduzidos para o português e distribuídos aos associados. Lembro que fui encarregado de traduzir um desses textos, mas a iniciativa se revelou desnecessária, porque, na década de 1970, a linguística era um filão muito lucrativo das editoras, e o texto em que eu estava trabalhando saiu publicado em português antes que eu terminasse minha própria tradução. Não sei no que deu esse projeto geral de um corpus de textos fundamentais, provavelmente, em nada.

Mas a circulação de ideias e autores desconhecidos e de novos livros encontrava no GEL um terreno fértil, e aconteceu naturalmente à medida que se sucediam os seminários; aos poucos os ventos que haviam soprado com fúria pela USP, difundindo as ideias de autores como Greimas, Pottier e outros estruturalistas franceses menos famosos, deram lugar a outros, que traziam notícias da linguística textual de Jo Grimes, do funcionalismo de Halliday e, claro, do gerativismo de Chomsky que tinha então seu principal reduto na PUC-SP. Foi graças uma palestra de Leila Bárbara que consegui entender o caráter “cibernético” do projeto de Syntactic Structures e o respeito que os matemáticos tinham por seu autor; e foi graças a uma palestra em que Mary Kato falou da Semântica Gerativa que eu me dei conta de como a semântica, em seus melhores momentos, é uma busca por representações em que a significação das palavras é reconstruída de modo a exibir organizadamente seus fatores. Mas a década de 1970 foi também a da descoberta das inter-disciplinas: em primeiro lugar a sociolinguística e a psicolinguística, e, aos poucos, inúmeras outras linguísticas que tinham um pé fora do cânone fonologia-morfologia-sintaxe recomendado pelo estruturalismo. Em suma, a década de 1970 foi um período de diversificação de tendências, e o GEL, que começava então a atrair as atenções dos estados vizinhos, contribuiu para essa diversificação como uma caixa de ressonância familiar e eficaz.

Como eu disse, entre os amigos a quem nos ligamos desde os primeiros seminários estava o Ataliba de Castilho. Ele gozava, já então, de um enorme prestígio, e só isso pode explicar a facilidade com que, no segundo semestre de 1977, conseguiu convencer os votantes a me elegerem para a presidência da associação. Foram eleitos comigo o próprio Ataliba (secretário), o Jesus Durigan (tesoureiro) e um vice-presidente que se licenciou poucas semanas depois e nunca deu notícias. Herdei assim uma associação que contava com um número exíguo de associados pagantes, e com uma legião de sócios sumidos. Começamos de zero, perdoando as dívidas dos que quisessem voltar (isso configurava uma agressão frontal dos estatutos) e eu meti as caras no que parecia ser a principal tarefa do presidente: a organização dos seminários, que foram ao todo três – Batatais, Mogi das Cruzes e Bauru, cada um com sua história.

Ao contrário do que acontece hoje, a realização dos primeiros seminários era sempre bancada por universidades particulares (que utilizavam o fato para ganhar sei lá que créditos junto ao MEC) e Batatais, Mogi e Bauru nos acolheram com competência e cortesia.

O seminário de Batatais foi hospedado pela Faculdade de Letras “José Olympio”, e se realizou nos locais de um antigo ateneu construído no século XIX por uma congregação religiosa alemã. O diretor da faculdade era também um religioso (padre Paulinho?), que colocou desde logo à disposição do GEL uma equipe de auxiliares extremamente eficiente, garantindo assim uma organização impecável, e uma solução imediata dos pequenos problemas que iam surgindo. Arrumou até um amigo fazendeiro que matou um boi para garantir um churrasco na faixa para aqueles linguistas esfomeados. Reconheço que as recordações mais claras que guardo desse seminário são de detalhes menores, o que, no fundo, só prova minha incapacidade de me fixar no essencial: ainda vejo claramente na minha frente um filtro de porcelana enorme e maravilhoso, vindo da Alemanha no século XIX para purificar a água que deveria dessedentar os reverendos educadores e os educandos do ateneu; uma cantoria de melodias caipiras que entrou pela madrugada, embalada por um conjunto maravilhoso de violeiros desconhecidos, e o incidente criado por um associado que, por ter sido convidado para uma mesa-redonda, “se achou”, e que por isso exigiu a suíte presidencial do hotel de Ribeirão Preto para onde a maioria dos participantes eram levados à noite para dormir (explico: em Batatais não havia um hotel capaz de abrigar tanta gente), um jogo de futebol entre sem-camisas e com camisas, jogado no intervalo do almoço num campo que era um terrão, no qual rasguei a calça no joelho e queimei as orelhas pouco acostumadas com o sol da região da Mogiana. Acima de tudo, lembro a paciência beneditina do padre Paulinho que encontrava uma solução para todos os problemas (inclusive o do colega que tinha ambições presidenciais para as horas de sono).

A hospedeira do meu segundo seminário, a Universidade de Mogi das Cruzes, era bem diferente, e o clima do GEL só poderia ser outro. Particular, laica e propriedade de um suplente de deputado federal que estava em campanha para se reeleger, a universidade viu na possibilidade de hospedar o GEL a chance de criar um evento cultural de impacto na cidade e, de fato, tudo foi previsto para ter proporções incompatíveis com as finanças do GEL e com os hábitos de nossos associados. Por exemplo, consultaram-se Noam Chomsky e Bernard Pottier para participarem do evento no papel que hoje os anglófonos chamam de key note, duas “notes” que seriam certamente destoantes, mas que acabariam contentando tanto os que esperavam para a linguística brasileira um futuro gerativista, como aqueles que continuavam idolatrando o estruturalismo francês. Mais modestamente, pensou-se também em homenagear os professores Theodoro Henrique Maurer e Isaac Nicolau Salum, responsáveis por terem implantado a linguística como disciplina obrigatória dos cursos de Letras da USP a partir da turma de 1963, uma história que eu conhecia bem porque foi precisamente esse o meu ano de ingresso na veneranda instituição da Rua Maria Antônia. Esta homenagem aconteceu. Chomsky e Pottier aceitaram o convite num primeiro momento, mas desistiram depois de algum tempo.

Como presidente do GEL, vi na procura por iniciativas de impacto que se cruzou em nosso caminho a possibilidade de realizar um sonho dos associados, o lançamento de uma revista, para a qual eu vinha colecionando as cópias escritas dos trabalhos apresentados nos seminários anteriores (essas cópias eram poucas, porque naqueles tempos os palestrantes falavam muito, ultrapassando sempre os limites de tempo previstos na programação, mas adiavam indefinidamente a entrega do texto escrito, numa troca de correspondências que venceria até Jó pelo cansaço). A negociação com a Universidade de Mogi das Cruzes para que assumisse os custos do primeiro número da revista foi longa e sofrida; a reunião em que se tratou do problema começou pela manhã, por volta das 9:30h e não tinha terminado às vinte para as três, quando todos os presentes continuaram argumentando numa van, e depois num restaurante oriental no centro da cidade (sim, havia em Mogi das Cruzes um restaurante oriental, aliás chiquérrimo, com direito a uma bandeja giratória no meio de cada mesa e dragões famintos cuspindo fogo nas tapeçarias das paredes). Estava comigo nesse dia o amigo João Wanderley Geraldi, a quem coube no momento mais difícil uma intervenção histórica que precisa ser relatada: enquanto a comida não vinha, tínhamos conseguido superar os impasses criados em torno do número de páginas, do formato e do tipo de papel, etc. e de repente nos demos conta de que não tínhamos pensado num título, e que estávamos passando por incompetentes. Nesse momento, o Geraldi, provando talvez que o estômago tem razões que a razão desconhece, pronunciou naquele tom categórico de que é capaz nos grandes momentos esta frase lapidar e fundadora: “o GEL faz estudos linguísticos, portanto o título está dado, será ‘Estudos linguísticos'”. E assim ficou. Deixamos os originais com o pessoal da Universidade, que os encaminhou a uma gráfica local que fez um serviço de segunda, mas o primeiro número de “Estudos Linguísticos” saiu pontualmente e pôde ser distribuído de graça a todos os participantes no primeiro dia do seminário.

Com o mesmo título ou com o título alternativo “Anais do GEL “, a revista continuou sendo publicada em papel por muitos anos, até tornar-se uma publicação eletrônica na gestão do Sírio Possenti. Nas próximas negociações com potenciais entidades hospedeiras, sua existência criou para as diretorias do GEL um poderoso argumento de barganha, que era possível jogar sobre a mesa nos seguintes termos: “não esperamos para nossos associados e nossos convidados nenhum tratamento de luxo, mas só faremos o próximo GEL na vossa instituição se vocês publicarem do próximo número de nossa revista”.

Como eu já disse, a homenagem que havíamos programado para os professores Maurer e Salum aconteceu e é o caso de dizer que foi, à sua maneira, bastante comovente. Salum e Maurer falaram muito, ultrapassando todos os limites razoáveis de tempo com discursos que não chegaram a ser cansativos, por serem brilhantes; e quem tinha conhecido o professor Maurer como um homem sem voz, cujas falas em aula eram inaudíveis depois da terceira fileira da sala 14, ouviu uma fala inflamada, altissonante e extremamente articulada em que ele relacionou suas ideias linguísticas às que tinha desenvolvido durante toda a vida sobre ecologia, alimentação e cooperativismo; e o professor Salum evocou a dupla Alvarenga e Ranchinho (por causa da diferença de temperamento entre os dois cantores) para descrever a colaboração dos dois homenageados durante vários anos na USP, responsável pelas primeiras teses de linguística defendidas em São Paulo e, na verdade, pela formação de boa parte dos presentes no seminário. Há fotos, muitas fotos, desse e de outros momentos do GEL de Mogi, nos arquivos do CEDAE-Unicamp. Nelas, os dois mestres aparecem austeros, e os jovens linguistas daquele tempo, que são agora titulares aposentados, aparecem de cabelos compridos e calças de boca larga, ou de penteados armados com bombril mas impecáveis, no caso de muitas moças.

Recuperando a programação do GEL de Mogi (também conservada no CEDAE-Unicamp) seria possível descobrir a que tendências da investigação linguística o GEL dava repercussão naquele momento, com suas palestras e sessões de comunicação; mas prefiro contar aqui um fato que me vingou do mal-estar de ver o GEL envolvido em política, e que valeu também por uma aula sobre os riscos inerentes às metáforas, mais eficaz do que as advertências de Aristóteles. O gabinete do reitor esperava fazer da cerimônia de abertura mais um evento a ser repercutido na imprensa, e a programou como a única atividade da noite anterior ao primeiro dia de trabalhos (uma ideia infeliz, porque nessa noite, sempre se espera uma presença pouco significativa de associados). Na hora, para suprir a falta de público, a universidade suspendeu as aulas de todos os cursos, e obrigou os professores a ocupar os assentos do grande anfiteatro que abrigava a cerimônia. Com sala cheia e anunciados pela voz do chefe do cerimonial, começaram os discursos, e eu, como presidente do GEL, pronunciei um deles, tenso, esquecendo o texto que tinha levado, e tentando dizer alguma coisa menos antipática àqueles estudantes que estariam amaldiçoando o que o tal de GEL (quem era ele?) e a universidade estavam fazendo com eles. Tenso e também suando em bicas, pela situação, por estar de terno e gravata, e também porque aquele começo de noite estava particularmente abafado, anunciando uma dessas chuvas que costumam alagar as várzeas da Paulicéia na hora do pôr do sol. Enfim, falei e sosseguei um pouco quando o reitor, começou sua própria fala, prevista para ser o momento dos grandes aplausos e dos flashes. Como a leitura de Halliday e Hasan estava recente em minha cabeça, fiquei à espera de um discurso coerente e coeso. Do reitor, veio a imagem das luzes da cultura que dissipam as trevas da ignorância, uma imagem tão velha quanto andar para frente, e mais gasta do que sovaco de aleijado, mas que me dava algum conforto porque o GEL, pelo sim pelo não, estava do lado da luz e não do lado das trevas. E enquanto o magnífico repisava a imagem, fiquei pensando o que viria em seguida. Não veio nada, ou melhor, veio um trovão fortíssimo, acompanhado por um relâmpago que parecia anunciar o fim do mundo. O pavilhão em que estávamos acabava de ser atingido, a universidade estava às escuras, e todos tiveram a intuição de que assim ficaria por um tempo incalculável. Seguiram-se cenas grotescas de corre-corre: os alunos tentavam alcançar as portas para chegar à estação da Central do Brasil e voltar a suas casas, e esbarravam em funcionários uniformizados que apontavam para eles o facho de luz de suas lanternas tentando fazer com que voltassem a seus assentos, e o reitor continuava falando no escuro, como se nada tivesse acontecido, mas não houve jeito, foi uma debandada geral, e em poucos minutos tudo tinha terminado. Aprendi que a metáfora que relaciona a luz e as trevas ao conhecimento e à ignorância pode não funcionar devido à interferência de fatores extra-técnicos, e que seu uso não é recomendado nos finais de tarde paulistanos, durante o verão.

O meu terceiro seminário aconteceu na Faculdade Sagrado Coração de Jesus de Bauru depois de uma negociação que deu certo graças à capacidade de negociar do Ataliba de Castilho. O problema era financeiro e até certo ponto irreal, porque as irmãs se viam obrigadas a arcar com as despesas de hospedagem e alimentação dos participantes, como já tinham feito antes. Acontece que, no seminário anterior, alguns colegas nossos tinham tomado de assalto os frigobares do hotel Ferraretto. As expectativas de minha gestão não incluíam tratar os associados a whisky escocês e castanhas de caju, mas, até isso ficar claro, a negociação foi tensa, a ponto de que ameacei suspender o seminário, que já tinha sido anunciado por circular, responsabilizando a universidade hospedeira por cancelar seu compromisso. Já contei o momento mais tenso dessa negociação num escrito disponível na Internet (“Ataliba Teixeira de Castilho e a regra conversacional AP”, Boletim do Centro de Documentação em Historiografia Lingüística” da USP, número VI, p .93-98), o por isso me dispenso de falar mais sobre ele aqui.

Meu mandato de presidente do Gel terminou às vésperas dos anos ’80. Deixei o cargo com a sensação de ter cumprido meu dever, mas também com um enorme cansaço, achando que pouco tinha mudado no próprio GEL (retrospectivamente, percebo que isso não era verdade) e com a sensação de ter usado mal um tempo que poderia ter aplicado em… fazer linguística de outras maneiras. Provavelmente esse é o balanço que fazem ao deixar o cargo todos os ex-presidentes de associações científicas, todos os ex-editores de revistas, e todos os ex-administradores de escolas superiores que, quando são bons, tendem a se cobrar de si mesmos aquilo que não conseguiram fazer; por isso eles merecem nosso carinho e nossa gratidão. Fiz então o solene propósito de evitar novos compromissos “associativos”, mas isso não me impediu de encarar, já na década de 1980, tarefas ainda mais exigentes e menos gratificantes (por exemplo a participação na organização de num grande congresso de Lógica e Filosofia da Linguagem, em 1981, ou do congresso da ALFAL que se realizou em Campinas, no começo da década ’90). Essas atividades e outras que vieram depois (como a direção do Instituto de Estudos da Linguagem durante quatro anos, a participação nos projetos da Gramática do Português Culto Falado no Brasil, e mais recentemente no projeto de História do PB, o mandato de quatro anos como editor da Revista da Abralin, para citar apenas algumas) me prenderam por longos períodos à minha mesa de trabalho e ao meu computador, e com isso minha participação reuniões científicas passou a ser praticamente nula.

Nas poucas ocasiões em que me deixei arrastar para um GEL, encontrei, como já disse, um ambiente muito diferente do dos primeiros tempos: não só os seminários de hoje oferecem uma programação incomparavelmente mais variada, a um número descomunal de participantes, mas as pessoas falam linguagens teóricas diferentes, e tendem a fechar-se em grupos, procurando interlocutores que trabalham sobre os mesmos temas, dentro da mesma orientação; nada que lembre os acirrados debates dos primeiros tempos, que não chegavam a nenhuma solução, mas confrontavam grandes tendências e assim geravam um debate epistemológico parecido com aquele que elevou a linguística ao papel de ciência-piloto, nos anos 1960 e 1970. Frequentados por um número de participantes que seria inimaginável nos primeiros anos, e abrigados quase sempre por universidades públicas, os seminários continuam sendo a atividade mais visível do GEL, e suas dimensões impuseram um gerenciamento mais profissional (que nem por isso dispensa a mobilização e o sacrifício de abnegados); mas, claro, perdeu-se aquele tipo de convivência em que todos se conheciam, e que fazia do GEL um reencontro de amigos.

Nesse contexto, chega a parecer um milagre que os seminários tenham conservado uma característica que vem desde os primeiros tempos, e que sempre ajudou não só a recrutar novos associados, mas sobretudo a atrair gente que se interessa pelos tais “estudos linguísticos” (o que quer que isso tenha sido ao longo do tempo e seja agora): a convivência desarmada e alegre, por alguns dias, de alunos da graduação sem grilos, mestrandos e doutorandos cheios de grilos, e docentes de todas as idades (alguns, por que não, claramente em processo de dinossaurização), sob a bandeira do interesse comum pela linguagem e, cada vez mais, pela língua que falamos. Criar esse ambiente foi uma grande conquista coletiva do GEL, e é uma bênção que ele tenha se conservado até aqui. Cabe a todos nós garantir a esse ambiente – e a tudo mais que o GEL significa – uma longa sobrevivência.

Campinas, junho de 2018.

Edição e publicação: Luciani Tenani.

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