Diretoria 1987-1989 (UNICAMP – CAMPINAS)

Presidente: Maria Bernadete Marques Abaurre

Vice-Presidente: Marisa Philbert Lajolo

Secretária: Maria Augusta Bastos de Mattos

Tesoureira: Maria Cecília Perroni

 

Leia a entrevista feita com a presidente da diretoria!

Fonte: Arquivo pessoal de
Maria Bernadete Marques Abaurre.

Foto de Luiza Abaurre.

 

MARIA BERNADETE MARQUES ABAURRE

Professora Titular Colaboradora da UNICAMP

Em 10/02/2019

 

O GEL comemora 50 anos de existência neste ano de 2019. Uma idade bonita, representativa da plena maturidade, que merece ser celebrada por todos os seus associados e por toda a comunidade linguística brasileira.
A pedido da atual presidente do GEL, professora Luciani Ester Tenani, deixo aqui o meu depoimento sobre o período em que, enquanto docente do Departamento de Linguística, presidi o Grupo de Estudos Linguísticos do Estado de São Paulo, no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp: 1987 a 1989. No texto que segue, procuro responder, de maneira sucinta, às duas questões que me foram propostas.

 

1) O que significava o GEL para a Linguística de São Paulo e do Brasil no momento em que você participou de sua diretoria? Houve algum fato marcante ou curiosidade que gostaria de partilhar?

A nossa foi a décima diretoria do GEL. Foram minhas companheiras de diretoria a professora Marisa Phillbert Lajolo, vice-presidente (Departamento de Teoria Literária); a professora Maria Augusta Bastos de Mattos, secretária (Departamento de Linguística Aplicada); e a professora Maria Cecília Perroni, tesoureira (Departamento de Linguística). Penso que vale a pena deixar registrado aqui (apenas como curiosidade, é claro!) que, conforme informações colhidas nos arquivos da associação, fomos a primeira diretoria composta exclusivamente por mulheres.

Assumimos a diretoria do GEL com a associação já plenamente consolidada. Os seminários do GEL já haviam então se firmado como eventos importantes das áreas de linguística e letras e eram por todos reconhecidos não só como espaço de congraçamento entre pesquisadores e alunos de instituições de São Paulo e de outros estados, mas também como um contexto acadêmico propício à apresentação de resultados de trabalhos e de projetos em andamento, bem como de discussão de questões pertinentes para as pesquisas da área em geral. Seu papel como espaço de formação de novos linguistas era inconteste e os seminários propiciavam aos alunos a oportunidade de conhecerem pessoalmente aqueles que consideravam os “grandes nomes” da linguística brasileira e que costumavam participar dos seminários proferindo conferências, integrando mesas-redondas e grupos de trabalho ou mesmo apresentando comunicações. Os seminários do GEL sempre foram percebidos pelos associados como um espaço familiar e acolhedor onde todos, docentes e alunos, se sentiam à vontade para apresentar e discutir os seus trabalhos. Entre os docentes, era bastante comum, na época, que a primeira pergunta feita antes do fechamento de uma agenda de viagens ou compromissos acadêmicos para o semestre fosse: “Quais as datas do próximo seminário do GEL?”. De certa forma, todos ansiávamos por essa oportunidade de congraçamento.

Durante a nossa gestão, organizamos três seminários, todos com a programação habitual, da qual constavam uma conferência de abertura e uma de encerramento, mesas-redondas, grupos de trabalho e sessões de comunicações. O XXXIV Seminário (6 a 7 de novembro de 1987) foi realizado na cidade de Santos. A instituição hospedeira foi a FAFIS/UNISANTOS (Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade Católica de Santos). No ano seguinte, promovemos, em Taubaté, o XXXV Seminário (16 a 17 de setembro de 1988). Hospedou-nos, dessa vez, a UNITAU (Universidade de Taubaté). Optamos por levar o Gel, que tradicionalmente era realizado em cidades do interior do estado, para locais mais próximos do litoral, Fomos, assim, inicialmente para Santos e em seguida para Taubaté, no Vale do Paraíba. Durante o último seminário que esteve sob nossa responsabilidade, no entanto, o XXXVI, comemoraríamos os 20 anos da associação. Esse seminário (2 a 3 de junho de 1989) foi então, como não poderia deixar de ser, realizado na cidade de São Paulo, hospedado pela USP, berço do GEL. Os trabalhos apresentados durante esses três seminários podem ser encontrados nos números da revista Estudos Linguísticos a eles dedicados.

Por ocasião do XXXVI Seminário, ao celebrarmos as primeiras duas décadas do GEL, prestamos uma homenagem ao Professor Isaac Nicolau Salum, um dos fundadores da associação. A cerimônia de abertura iniciou-se com os depoimentos dos primeiros presidentes, Ataliba Teixeira de Castilho, Izidoro Blikstein e João de Almeida, que resgataram os momentos mais significativos da história do GEL e as realizações mais significativas da associação, bem como o seu papel de destaque na formação das novas gerações de linguistas. Seguiu-se a homenagem ao Professor Salum. Após discurso por mim proferido, houve a entrega a ele de uma placa comemorativa de prata e de uma muda de cedro plantada em terra de Muzambinho, cidade muito cara ao professor, que ali iniciou seus estudos. Essa foi uma homenagem sincera por parte da nossa diretoria, pois naquele momento o Gel queria fazer mais do que prestar mais uma homenagem ao Professor Salum, além das muitas que ele já havia recebido ao longo de sua vida. Não se tratava, a nosso ver, de fazer apenas mais um balanço da sua contribuição para os estudos de filologia e para a consolidação dos interesses pelos estudos linguísticos no Estado de São Paulo. Optamos, então por dar um caráter mais humano ao nosso gesto, que pretendeu homenagear não apenas o grande e respeitado acadêmico, mas também – e sobretudo! – a pessoa de Isaac Nicolau Salum.

Foi com a sensação do dever cumprido que, ao término desse XXXVI Seminário, passamos a gestão do GEL à sua nova diretoria, eleita durante a Assembleia Geral realizada no dia 2 de junho de 1989. A missão de conduzir a associação pelos próximos dois anos passou a ser, então, dos professores da FFLCH/USP José Luiz Fiorin (presidente), Beth Brait (vice-presidente), Ângela Cecília de Souza Rodrigues (secretária) e Antônio Suárez Abreu (tesoureiro).

 

2) Que papel o GEL poderia desempenhar hoje, diante dos desafios que você vislumbra para a Linguística (brasileira) contemporânea?

O GEL, ao longo de toda a sua já longa história, sempre desempenhou um papel importante na promoção dos estudos sobre linguagem. Além de sempre se ter constituído em espaço privilegiado de divulgação dos resultados de pesquisas realizadas nas universidades do estado de São Paulo e de outros estados brasileiros, tem sido, também, um importante fórum de discussão de questões que dizem respeito diretamente à criação das necessárias condições institucionais para a realização dessas pesquisas e à inserção e papel dos linguistas na sociedade brasileira..

Penso que, nos anos futuros, além de continuar a exercer esse papel de congregar os pesquisadores da linguagem, o GEL poderia, uma vez identificados pelos seus próprios associados alguns desafios da linguística brasileira, criar espaços, em seus seminários, para discussão dos modos possíveis de enfrentá-los e para a definição de propostas concretas de ação.
Pessoalmente, visualizo alguns dos desafios que temos pela frente nos anos vindouros:

1) a realização de um balanço do que se tem efetivamente feito em termos de pesquisas nas várias áreas dos estudos da linguagem e a definição de tópicos prioritários para pesquisa futura;

2) o fomento à criação de um maior número de bancos de dados (estamos vivendo um momento em que a linguística de corpus já pode contribuir efetivamente para a organização de acervos que, mais do que úteis, são hoje quase que condição necessária para a pesquisa que combina teorias e hipóteses a dados estatisticamente suficientes para confirmá-las ou refutá-las);

3) a discussão dos currículos dos cursos de letras e linguística a partir de problemas que todos vimos observando na formação das novas gerações de estudantes que buscam tais cursos;

4) o enfrentamento de uma questão séria e até hoje não resolvida, que diz respeito à dificuldade geral, observada de há muito em nosso meio acadêmico, de enfrentarmos as críticas aos resultados das nossas pesquisas (se a geração dos atuais pesquisadores se mostra, de modo geral, avessa a essas críticas, quem sabe não poderíamos refletir a esse respeito de modo franco e desarmado e assumir que é nosso papel formar pesquisadores para quem as críticas são vistas não só como necessárias, mas sobretudo como constitutivas do processo de produção e avanço do conhecimento?);

5) a definição de propostas concretas relacionadas à necessária atuação dos pesquisadores da área junto aos agentes sociais responsáveis pelo ensino de língua materna em todos os níveis educacionais e sobretudo por aqueles que têm hoje a responsabilidade de definir novas políticas para a educação brasileira em tempos de um novo governo..

Sabemos que desde pelo menos o início da década de oitenta do século passado um número cada vez maior de linguistas brasileiros se tem engajado nessa cruzada pela melhoria do ensino no país. Os Anais dos seminários do GEL são fiéis testemunhas do envolvimento de muitos de nós com a questão do ensino de língua materna, dado o alto número de trabalhos dedicados ao tema ao longo das últimas décadas. Nos dias atuais, o risco de retrocesso com relação às conquistas já duramente alcançadas é, no entanto, não só real como iminente e o GEL, enquanto associação reconhecida, poderia desempenhar um papel de suma importância, não apenas como porta-voz das nossas angústias perante toda a sociedade brasileira, mas também congregando seus associados em torno de um objetivo comum: lutar para que a contribuição já prestada por tantos linguistas à causa da alfabetização e do ensino de língua materna não seja, agora, descartada como mero fruto do que muitos consideram, de forma equivocada, uma “ideologia” que deve ser feroz e irracionalmente combatida por quem não dispõe dos conhecimentos mínimos desejados para discutir tecnicamente questão de tamanha importância.

Esses são apenas alguns dos desafios que achei pertinente expor aqui. Os próprios associados do GEL poderiam contribuir com a identificação de muitos outros e, ao fazê-lo, estariam também contribuindo para que a nossa associação mantenha a mesma atuação dinâmica que sempre a caracterizou.

 

Edição e publicação: Luciani Tenani.

 

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *