Diretoria 1979-1981 (UNESP – ARARAQUARA)

Presidente: Francisco da Silva Borba

Vice-Presidente: Telmo Correia Arrais

Secretária: Odette G.L.A. de Souza Campos

Tesoureiro: Sebastião Expedito Ignácio

 

Leia a entrevista feita com o presidente da diretoria!

FRANCISCO DA SILVA BORBA

Professor Livre-docente da UNESP (Araraquara)

Em 25/11/2018

 

1) O que significava o GEL para a Linguística de São Paulo e do Brasil no momento em que você participou de sua diretoria? Houve algum fato marcante ou curiosidade que gostaria de partilhar?

2) Que papel o GEL poderia desempenhar hoje, diante dos desafios que você vislumbra para a Linguística (brasileira) contemporânea?

 

O GEL foi criado em fevereiro de 1969, durante um seminário interamericano de Linguística realizado em São Paulo, na USP, no prédio de História. A ideia foi do Ataliba.

Um dia, em conversa, ele me disse – “Precisamos nos reunir sistematicamente, montar uma associação. Existe a ABRALIN  [Associação Brasileira de Linguística], mas com gente de fora [de fora, queria dizer não paulista]. E eu respondi: “Tá certo. Então, vamos falar com o Prof. Salum” [da área de Filologia Românica, grande Mestre, o mentor de nossa geração]. E ele respondeu – “Tá certo, mas com uma condição – as reuniões nunca serão aqui em São Paulo” [ou seja, no Departamento de Letras da FFLCH. Aliás, naquele tempo a área de Letras não tinha nem prédio próprio], pois essa associação está nascendo por iniciativa das faculdades de filosofia do interior.

Concordamos e ele, ainda: “Bem, pra registrar a tal Associação é preciso, primeiro, redigir seu estatuto”. E daí a coisa andou rápido – estatuto redigido, nome – Associação de Linguística do Estado de São Paulo > Associação de Estudos Linguísticos do Estado de São Paulo > Grupo de Estudos Linguísticos do Estado de São Paulo – GELESP – que, naturalmente, logo virou GEL, e ficou.

Eleita a primeira diretoria – Ataliba, presidente; Cidmar, secretário e Borba, tesoureiro -, e decidido que haveria uma reunião por semestre [o que logo se revelou inviável, passando a uma reunião por ano], começou-se a discussão do quando e onde seria a primeira reunião. E foi em maio de 1969, em Araraquara, que nos reunimos os vinte e três fundadores do GEL, que ali chegaram por conta própria [eu consegui, com a diretoria da FFCL de Araraquara, almoço para os três dias de duração do encontro].

A constância dos seminários do GEL fez que não só aumentasse o número de participantes, mas que se ampliasse seu alcance: pesquisa e ensino de linguística teórica, língua portuguesa, línguas clássicas e demais línguas ensinadas nos cursos de Letras das faculdades do Estado de São Paulo.

Para os nossos cursos de línguas, estou convicto de que a regularidade de atuação do GEL foi decisiva em dois aspectos básicos, a conscientização do profissional da área e o estímulo à pesquisa.

O profissional em Linguística não é simplesmente um repetidor de conteúdos em cursos semestrais – ele é, antes de mais nada, um pesquisador, ou seja, um cientista que, munido de material teórico adequado, consegue montar toda uma metodologia, que lhe fornecerá técnicas para ir aos fatos, no caso, linguísticos, e, portanto, conhecer a natureza da linguagem humana e, daí chegar à estrutura e funcionamento quer de sua língua natal quer de outro qualquer sistema linguístico. Aquele que consegue este tipo de formação e trata de repassá-lo, de alguma forma ou grau, estará contribuindo para a formação do cidadão consciente de sua responsabilidade social, já que a língua não traduz simplesmente os dados culturais, mas lhes dá determinada fisionomia. Também quem aprende línguas estrangeiras desta forma estará não só acumulando dados culturais, mas ainda alterando e aumentando sua própria responsabilidade social.

O segundo aspecto positivo que vejo como estimulado pela existência do GEL se liga à formação de grupos de pesquisa, ou seja, a pesquisa conjunta que realmente faz avançar a ciência linguística em nosso país, e não tão somente a pesquisa individual, destinada a conseguir títulos acadêmicos que permitem o avanço da carreira universitária.

É claro que há trabalhos muito bons de mestrado, doutorado e livre-docência. O que quero dizer é que o alcance social deles é necessariamente limitado. Como exemplos concretos desses grupos, cito o grande conjunto de pesquisadores que, sob a coordenação do Ataliba, trabalhou por mais de duas décadas na descrição do português culto falado no Brasil e de que resultaram não apenas teses, mas também vários ensaios e gramáticas publicados.

Eu também, que sempre trabalhei com a língua escrita, consegui, com dez colegas do Departamento de Linguística da FFCL de Araraquara, e a partir do levantamento em fichinhas, montar o Dicionário Gramatical de Verbos do Português Contemporâneo do Brasil, publicado em 1990. Depois, consegui, a duras penas, até 1990, montar um corpus de 70 milhões de ocorrências de palavras em textos de língua escrita no Brasil. Com um grupo de cinco colegas do mesmo Departamento, encetamos o levantamento das propriedades sintático-semânticas do léxico que circula na língua escrita do Brasil de que resultaram o Dicionário de usos do Português contemporâneo do Brasil (Ática, 2002), o Dicionário Unesp de Português e mais dois dicionários escolares publicados pela Positivo, de Curitiba.

Com isto estou querendo frisar que é muito importante para a atividade acadêmica a existência de uma associação como o GEL onde se possa conversar, trocar ideias, discutir projetos. Desafios a gente sempre encontra quando se leva a sério a profissão. Compartilhá-los é sempre saudável, e até consolo por saber que não estamos a sós nas nossas incertezas, e mesmo em nossas agruras.

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