Diretoria 1989-1991 (USP – SÃO PAULO)

Presidente: José Luiz Fiorin

Vice-Presidente: Beth Brait

Secretária: Ângela Cecília de Souza Rodrigues

Tesoureiro: Antônio Suárez Abreu

 

Leia a entrevista concedida pelo presidente da diretoria!

Fonte da foto: FFLCH/USP.

José Luiz Fiorin

Professor Adjunto da USP 

Em 19/09/2018.

 

1) O que significava o GEL para a Linguística de São Paulo e do Brasil no momento em que você participou de sua diretoria? Houve algum fato marcante ou curiosidade que gostaria de partilhar?

2) Que papel o GEL poderia desempenhar hoje, diante dos desafios que você vislumbra para a Linguística (brasileira) contemporânea?

 

…o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia

(ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 20 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986, p. 60).

 

Fui presidente do GEL no biênio 1989-1991. Os outros membros da diretoria, todos da USP, eram Beth Brait, Vice-Presidente; Ângela Cecília de Souza Rodrigues, Secretária, e Antônio Soares Abreu, Tesoureiro. Quando assumimos a diretoria, os seminários eram semestrais. Quando o GEL foi criado não havia muitos eventos e, por isso, deliberou-se que os seminários seriam um no primeiro e um no segundo semestre. No entanto, com o aumento no número de eventos, decidiu-se, em nossa gestão, que as reuniões passariam a ser anuais. Realizamos três seminários: o XXXVII, em 1989, nas Faculdades Integradas Teresa d’Ávila, em Lorena; o XXXVIII, em 1990, na UNESP, em Bauru; o XXXIX, em 1991, na UNIFRAN, em Franca.

Publicamos três volumes dos Estudos linguísticos, o XVIII, o XIX e o XX. Nessa época, quando não havia publicações online nem mesmo CD-ROM, as grandes despesas do GEL eram a impressão dos anais e do caderno de resumos. Em Lorena, por exemplo, por intermédio da Secretária da Cultura, conseguimos que a Prefeitura Municipal financiasse essas publicações. Era uma dificuldade conseguir esses financiamentos.

Os seminários contavam com os participantes durante toda a sua duração. Era um convívio grande de professores experientes com iniciantes na pesquisa. Nesses três seminários, houve muitos trabalhos apresentados, bastante discussão acadêmica, mas também jantares memoráveis, jogos de truco… Os seminários eram uma deliciosa mistura de trabalho e festa.

Deixemos agora o que foi particular a nossa diretoria e pensemos sobre o percurso da Associação. Para isso, retomo ideias que ainda conservam atualidade e que apresentei em discurso feito na comemoração do 25º aniversário do GEL, realizada no XLII Seminário, ocorrido na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas da USP em 1994.

O real do GEL não está na saída nem na chegada, mas no meio da travessia. Ele começou muito pequeno e cresceu bastante. É a mais importante associação regional brasileira na área de linguística. Era o espaço em que os iniciantes começavam a apresentar seus primeiros trabalhos e os pesquisadores confirmados mostravam os resultados de suas investigações. Era, assim, o lugar de iniciação científica e de discussão aprofundada. Lembro-me do primeiro GEL de que participei, quando era recém-formado, realizado na Faculdade Toledo de Araçatuba, em 1972. Via tudo com fascinação e interesse. Foi lá que começou a despertar minha vocação de linguista. Foi no XXI Seminário do GEL, realizado, em 1979, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, que apresentei minha primeira comunicação, intitulada Sistemas de signos e ideologia.

Se considerarmos a vida do GEL um processo, podemos dizer que sua aspectualidade é durativa contínua, já que nunca houve interrupção de suas atividades, pois suas diretorias, com o apoio de todos os associados, mantiveram sempre a continuidade e a regularidade dos trabalhos.

Que significado tem comemorar os cinquenta anos de atividades do GEL? A celebração tem um duplo sentido: de um lado, é o tempo de olhar para trás, para o passado, a fim de sancionar o que foi feito, de manifestar orgulho com o que foi realizado, de fazer um balanço do que foi executado; de outro, é a ocasião de lançar os olhos em direção ao futuro e, por conseguinte, é o momento do vir a ser, de pensar na renovação, na mudança, na transformação. Se ela festeja o que se fez, obriga-nos a pensar no que devemos fazer. Não pode ser a exaltação da estabilidade e da imutabilidade, mas deve ser um instante de instabilidade, que se opõe a toda perpetuação, a todo acabamento.

Lancemos primeiramente os olhos para o passado. Lendo-o, poderíamos considerar o conjunto dos Seminários e demais atividades do GEL um enunciado e, então, analisar o conteúdo daquilo que foi neles apresentado: os temas de pesquisa, a qualidade dos trabalhos, etc. Desse ponto de vista, pode-se dizer que o GEL, criado para impulsionar a pesquisa linguística no Estado de São Paulo, foi um sucesso. Contribuiu para que se abrissem novas áreas de investigação, para que a produção da área crescesse e se tornasse regular, para que o nível dos trabalhos melhorasse. Não queremos dizer que tudo o que se apresentou no GEL tivesse bom nível. Entretanto, a Associação estimulou a criação de um ambiente de pesquisa e de um espaço de emulação entre os pesquisadores.

Poderíamos, porém, considerar os Seminários, que já tomamos como enunciado, do ponto de vista da enunciação, da própria produção. Se, como diz Benveniste, a enunciação é a instância do ego-hic-nunc, a partir da qual se projetam no enunciado espaços, tempos e pessoas, operando, assim, a passagem das virtualidades da língua para a atualidade do discurso, avaliar os Seminários do ponto de vista da enunciação é analisar as condições de produção, é ver desfilar diante de nós atores, espaços e tempos. Passam diante de nós pesquisadores que começaram a apresentar timidamente seus primeiros trabalhos no GEL e hoje ocupam lugar de destaque no âmbito dos estudos linguísticos; pioneiros que até hoje continuam a animar-nos, a indicar-nos caminhos e direções; pesquisadores que já se foram.

Vemos os espaços em que os Seminários se realizaram: Araçatuba, Araraquara, Assis, Avaré, Batatais, Bauru, Campinas, Franca, Jaú, Lins, Lorena, Marília, Mogi das Cruzes, Piracicaba, Ribeirão Preto, Santo André, Santos, São Carlos, São José do Rio Preto, São Paulo, Taubaté, Tupã. Nossa Associação cumpriu seu papel de levar o incentivo da presença de importantes pesquisadores a todos os pontos do Estado. Os tempos também se apresentam a nossos olhos: tempos internos a Associação, aqueles que mostram quais as disciplinas e os temas mais prestigiados: agora, a fonologia; depois, a semântica; mais adiante, os estudos do discurso; tempo de renovação da teoria da gramática; tempo de retomada da linguística histórica e assim por diante; tempos externos ao GEL, o da ditadura e o da redemocratização, o da luta pelas diretas e contra a corrupção, tempos de esperança e de alegria, tempos de desesperança e de decepção. Desse ponto de vista, também foi rica a história do GEL.

Ainda de olhos voltados para o passado, poderíamos pensar sobre o que foi organizar os seminários. Foi um trabalho enorme manter a continuidade dos trabalhos de nossa Associação, conseguir entidades hospedeiras, obter patrocínio para publicar os Anais, quando só podiam ser confeccionados em papel e começaram a avolumar-se gigantescamente. Tudo valeu a pena. O desejo dos pioneiros, ao fundar o GEL, era consolidar a pesquisa linguística, aumentar o número de pesquisadores, ampliar as áreas de investigação, pôr a pesquisa realizada no Estado em sintonia com o que se fazia nos centros mais avançados. Tudo isso foi realizado, porque o GEL manteve sempre elevados valores acadêmicos: debate, pluralidade, renovação.

Devemos voltar agora os olhos para o futuro. A produção acadêmica começa a estiolar-se por causa da exigência de um grande número de publicações por ano. Não há tempo de debruçar-se sobre trabalhos mais longos e essa publicação sem fôlego torna-se dispensável. Creio que chegou a hora dos grandes projetos, em que colaboram pesquisadores de diferentes universidades para a produção de trabalhos que não podem ser feitos por uma única pessoa. Os seminários deveriam funcionar com simpósios sobre temas e não com comunicações isoladas. É preciso que os que apresentam trabalhos participem de fato do seminário. É necessário fortalecer certas áreas, que, nos últimos anos, não têm sido muito prestigiadas. Acima de tudo, é preciso acabar com as querelas entre os pesquisadores das diversas áreas, os adeptos desta ou daquela linha teórica. Afinal, se crescemos muito, somos ainda fracos. E num mundo marcado pelo que Marilena Chauí chama a inessencialidade das ciências humanas, não podemos digladiar-nos em torno de questões menores. Cada uma das diferentes áreas e linhas teóricas aporta uma contribuição para o entendimento da linguagem e, portanto, cada uma delas tem seu valor, seu alcance, seus limites. O que temos que fazer é proclamar que as Letras têm um papel fundamental no processo civilizatório. Neste momento, nosso país está precisando bastante restabelecer (ou estabelecer) ideais civilizatórios. Essa é nossa missão.

 

* Texto redigido por José Luiz Fiorin (USP) em setembro de 2018, tratado por Ênio Sugiyama Jr. (Doutorando do PPG de Semiótica e Linguística Geral – CEDOCH – USP; Docente da UFOB) e publicado por Luciani Tenani (UNESP-SJRP) em 19 de setembro de 2018.

 

 

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *