Diretoria 1971-1973

Presidente: Izidoro Blikstein (USP)

Secretário: Ignácio Assis da Silva (FFCL-Araraquara*)

Tesoureiro: Edward Lopes (FFCL-Assis*)

*Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL): faculdades afiliadas à Coordenadoria de Ensino Superior do Estado de São Paulo (CESESP), que deram origem à UNESP em 1975.

 

Leia a entrevista concedida pelo presidente da diretoria!

IZIDORO BLIKSTEIN

Professor Titular da USP

Em 10/03/2019.

1) O que significava o GEL para a Linguística de São Paulo e do Brasil no momento em que você participou de sua diretoria? Houve algum fato marcante ou curiosidade que gostaria de partilhar?

Boa tarde a todos! Eu sou Izidoro Blikstein. Fui professor de Linguística na Universidade de São Paulo, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, a FFLCH. Desde 1965, quando eu ingressei no corpo docente da faculdade. E permaneci como professor na ativa até 1995, quando, então, me aposentei e continuei atuando como professor voluntário na área de Pós-graduação de Linguística e também na área de Pós-graduação de Língua e Literatura Judaica, trabalhando especificamente com o tema do holocausto e do totalitarismo, da dominação totalitária, procurando mostrar como que as ferramentas semióticas foram usadas para o poder totalitário.

Bem, eu queria agradecer à professora Olga e ao Ênio pela oportunidade que me concedem para falar algo a respeito da minha experiência com o GEL, o Grupo de Estudos Linguísticos do Estado de São Paulo. O Ênio me perguntou a respeito do significado do GEL para a Linguística. Eu poderia dizer inicialmente que compreender o papel do GEL para a Linguística implica compreender como a Linguística foi introduzida nos currículos de Letras e qual foi o impacto da Linguística para a área de Letras e, depois, para a área de Ciências Humanas, de modo geral. O fato é que, mais ou menos no final da década de 60, início da década de 70, as grandes teorias Linguísticas começaram a ser divulgadas aqui no Brasil – ou por meio de leituras, livros que chegavam ao nosso conhecimento, mas também pela possibilidade que os estudantes tinham de, mediante uma bolsa de estudos, fazer um curso de especialização, mestrado ou até doutorado em universidades do exterior, particularmente na França.

No caso da França, eu gostaria de citar o papel de um professor de Língua e Literatura Grega que provocou uma verdadeira revolução nas Letras quando ele veio ao Brasil para assumir a cadeira de Língua e Literatura Grega. Era o professor Robert Henri Aubreton. O professor Aubreton considerava que, para desenvolver os estudos filológicos, linguísticos, era necessário, realmente, que nós, os alunos de Letras, procurassêmos a possibilidade de efetuar um curso de especialização, ou até mesmo o mestrado e o doutorado, particularmente nas universidades francesas, que eram de amplo conhecimento do professor Aubreton. E assim foi que alguns de nossos colegas, e eu mesmo, mediante uma bolsa de estudos, tivemos a oportunidade de viajar para a França e, ali, tomar contato com a vanguarda dos estudos linguísticos, literários, filosóficos, daí por diante. E, ao voltar ao Brasil, nós trazíamos as ideias revolucionárias de Roland Barthes, por exemplo, Claude Lévi-Strauss, de Michel Foucault e, com esse incremento nas Letras, o fato é que nós pudemos desenvolver os estudos linguísticos também.

A Linguística estava caminhando de uma maneira revolucionária, na medida em que ela não se concentrava exatamente nos estudos gramaticais, embora eles fizessem parte, também, mas na análise e no estudo da linguagem, no funcionamento da linguagem como uma ferramenta de comunicação. E isso nós devemos à divulgação das ideias de Ferdinand de Saussure, que passou a ser conhecido mediante as suas ideias revolucionárias (as famosas dicotomias saussurianas, língua e fala, significante e significado, sincronia e diacronia). Essas ideias foram o germe para uma revolução nos estudos sobre a linguagem. E concorreu também para isso a possibilidade de nós efetuarmos traduções desses textos. Eu posso dizer que eu mesmo tive a felicidade de traduzir alguns desses autores. Foi o caso do “Curso de Linguística Geral”, de Ferdinand de Saussure, “Elementos de Semiologia”, do Roland Barthes, “A Comunicação e a Articulação Linguística”, de Eric Buyssen, ou “Semântica Estrutural”, de Greimas, e assim por diante, um livro introdutório que foi muito útil para os cursos de linguística, que é “As Grandes Correntes da Linguística Moderna”, de Maurice Leroy. Então, as traduções, essa migração, ou essa movimentação de estudantes que iam para a Europa, para a França, particularmente, voltavam com seu mestrado, seu doutorado, com essas ideias novas, tudo isso foi o grande motor para movimentar a Linguística nos estudos nas áreas de Letras e áreas correlatas, também, Comunicação, Sociologia, Filosofia, etc.

Agora, a entrada da Linguística não foi pacífica. Pelo contrário: ela gerou reações, às vezes, até ferozes. Os professores, especialistas na área de Filologia, por exemplo, achavam que toda essa história de Linguística era uma “parolagem”. Muitos termos, digamos assim, um tanto quanto ambiciosos para dizer as mesmas coisas que a Filologia também já tinha ensinado. Bem, essa reação, às vezes se deveu por, eu diria, um medo do novo, um medo do desconhecido. Professores, habituados a lecionar a Linguística Histórica, mostrar a origem das palavras, as mudanças fonéticas, leis fonéticas, etc, julgavam estranho que, por exemplo, como me disse um colega numa ocasião, a Linguística aplaudisse o erro gramatical.

Aí houve, de fato, uma grande distorção das ideias de Saussure e de outros estudiosos, como André Martinet, porque ninguém afirmou que a Linguística aplaudia o erro – esse é um equívoco lamentável. A Linguística não aplaudia o erro. Ela simplesmente estudava o erro. A proposta da Linguística era verificar por que as pessoas contrariavam a regra gramatical. Qual seria o motivo? E, no estudo do mecanismo do erro, a linguística abriu os horizontes para a chamada área da sociolinguística, que era estudar os diversos registros linguísticos. Desse modo, se não fosse possível fazer o estudo do erro, alguns autores, alguns compositores, por exemplo, como o Adoniran Barbosa, estariam condenados ao inferno, porque onde está a graça das letras, das composições de Adoniran Barbosa? Está exatamente no erro, não é? A famosa “Saudosa maloca”… imagine se eu cantasse assim: “nós fomos…”… ou, então, o “Samba do Arnesto”, “nós fomos e não encontramos ninguém”… Cadê a graça? Tem que ser “nós fumo e não encontremo ninguém”, porque é assim que o povo fala, não é? Não significa aplaudir o erro. Mas, significa estudar aquele Português popular, porque nós sabemos que não há, a sociolinguística ensina isso, não há um só Português. Há muitos registros da Língua Portuguesa que, nós sabemos, um registro culto, formal, um registro tenso e um registro popular, informal, que são formas de comunicação que podem ser estudadas, e a gente pode fixar as regras – senão, como estudar Guimarães Rosa, por exemplo, não é? O que faz Guimarães Rosa? Ele justamente se preocupa em, ao ouvir a fala mineira cabocla, criar a partir dos modelos dessa fala. Então, por exemplo, quando ele, no conto “Nós, os temulentos”, descreve a volta de Chico para casa – Chico, a personagem, está completamente embriagado – e ele diz em um dado momento: “ele embriagatinhou-se e depois quadrupedou-se”. Bem, eu estou vendo claramente o bêbado engatinhar e depois andar de quatro. Mas depois diz Guimarães Rosa, na descrição do bêbado: “ele verticou-se”. Todo mundo sabe o que é: “ele ficou de pé”. A palavra não existe no dicionário, mas Guimarães Rosa, na sua genialidade, percebendo como o homem do povo das fazendas do interior criava termos, ele também se propôs a criar, a fazer sua criação literária, que nós conhecemos e sabemos o quão genial ela é.

Então eu estou dizendo tudo isso para mostrar a revolução que a Linguística provocou sem nenhum desdouro para as outras disciplinas, a filologia, poderia perfeitamente continuar ao lado da Linguística, mas houve essa reação, e aí é que eu entro na pergunta que você fez, Ênio. Aí o GEL teve um papel fundamental. Quando foi criado o GEL, era justamente para ter a oportunidade de conhecer esses conceitos da Linguística, as pesquisas, os avanços e permitir que os estudiosos de Linguística divulgassem os seus trabalhos. Então, o Grupo de Estudos Linguísticos do Estado de São Paulo foi criado com esse objetivo: de divulgar a Linguística, os trabalhos, as pesquisas. E, sobretudo da forma como é que foi concebido, porque qual seria a exigência fundamental? Era que o GEL fosse realizado numa determinada cidade do interior. Ele foi realizado em São Paulo, também, mas a regra seria ser realizado numa cidade do interior de modo a dar a oportunidade às faculdades do interior se aproximarem dos professores de São Paulo e realizar exatamente um congraçamento, uma soma de ideias, de conhecimentos, além de poder conhecer os colegas e o que faziam nas suas faculdades no interior. E esses encontros do GEL eram caracterizados, antes de tudo, por um grande prazer: encontrar os colegas, trocar ideias, contar o que cada um estava fazendo, além, naturalmente, da parte formal, que era, justamente, a parte de palestras, de conferências, etc.

Eu tive o privilégio de presidir o GEL. Aqui – vocês podem me ajudar – foi, se não me engano, de 1971 a 1973, não é isso? E eu me tornei presidente por acaso. Eu nem sonhava em presidir o GEL, mas eu fui acompanhado da minha esposa, a Ester, e, quando chegamos lá em Assis para participar do congresso, a minha esposa falou assim: “Olha, aqui nós vamos ter eleições. Por que você não se candidata?” Eu falei: “Não, nós temos aí colegas muito mais competentes do que eu, e tal”. Mas acontece que, na surdina, a minha esposa fez a campanha por mim. “Ah, vote no Izidoro, vote no Izidoro!”. E, de repente, eu tive a surpresa de ver o meu nome consagrado. Eu confesso que pesou-me muito a responsabilidade, mas, felizmente, eu fui muito ajudado pelos colegas que compunham a diretoria, particularmente o professor Inácio Assis Silva, infelizmente já falecido, que colaborou comigo para a organização dos encontros do GEL.

Agora, é importante ressaltar o papel de um professor que, embora sempre me dissesse que não era linguista, participava da Linguística de uma forma um pouco amadora, mas nós devemos a criação do GEL a essa figura, que foi o professor Isaac Nicolau Salum, que era professor de Filologia Românica e, dizia ele, interessado em Linguística, mas ele sabia muito de Linguística. Ele, aliás, fez o prefácio da tradução brasileira do “Curso de Linguística Geral”, de Saussure. E o professor Salum tinha uma autoridade pelos conhecimentos dele, além de conhecer Grego, Latim, Hebraico, Árabe, Francês, Inglês, etc, ele desenvolvia atividades também religiosas, era pastor, então tinha uma experiência com a bíblia. Às vezes, eu tinha alguma dúvida em relação à bíblia, telefonava para ele, e ele já dizia: “ah, isso é do capítulo tal, versículo tal, etc”. E ele, realmente, tinha um conhecimento de língua portuguesa profundo, tanto assim é que ele começou a desenvolver um trabalho de desgalhamento de frases, ele fazia a desmontagem sintática do texto. Alguns trabalhos dele foram, realmente, muito esclarecedores. Um foi a desmontagem da crônica “Caçada de Paca”, de Rubem Braga. É um texto difícil, denso, de uma sintaxe um pouco atropelada, e ele desmonta o texto e esclarece a parte semântica do texto com essa desmontagem sintática. Mas a grande virtude do professor Salum, que nos ajudou a criar um clima extremamente simpático no GEL, era a sua humildade. O professor Salum, com todos esses conhecimentos, era de uma simplicidade extraordinária, porque era um modelo para nós, porque ele conversava com todos, e a relação dele com alunos, colegas e funcionários era horizontal, você não sentia o catedrático do alto da sua arrogância, mas uma pessoa como qualquer um, era capaz de falar de qualquer assunto, cumprimentar as pessoas, e até eu poderia relatar um episódio que eu tive a oportunidade de acompanhar. O professor Salum morava na Vila Mariana. Numa época em que poucos tinham carros, ele ia de ônibus e depois pegava um bonde na Domingos de Moraes para chegar ao local da residência dele. E eu o acompanhei numa dessas viagens porque ele carregava uma porção de livros. Tomou o bonde e aí ele viu o motorneiro, como a gente chamava… você chegou a tomar bonde? Não? O motorneiro ficava lá na frente, e o professor virou para ele e falou:
– uai…
O “uai” dele, porque ele era mineiro…
– Uai, você está aqui? Você estava sumido, rapaz!
– Ah, o senhor sabe, desculpe, professor, eu tive problemas em casa. A minha… a minha… – gaguejou um pouco – A minha progenitora estava muito doente. Graças a Deus ela melhorou agora.
Passou um pouquinho, isso durante a viagem de bonde:
– Professor, desculpe a pergunta, mas qual é o certo: é progenitora ou mãe?
Aí o professor Salum disse:
– Olha, primeiro você tem genitora, aquela que gerou o filho. Progenitora é aquela que gerou o primeiro filho. Mas, se você quiser, você pode falar “mãe”, mesmo.

Eu considerei essa uma grande lição de sociolinguística, porque o professor Salum captou naquele momento o fenômeno do “hiperurbanismo”, porque o rapaz, o motorneiro, sabia que estava conversando com um catedrático, então ele enfeitou a linguagem, ele falou “progenitora”, mas o professor Salum disse:
– Não, pode usar o… – ele estava dizendo – …pode usar o registro normal. “Mãe”, mesmo, dá certo, não é?
Então, ele revelava essa sabedoria de captar o fenômeno linguístico a qualquer momento, por exemplo, num bonde, com o motorneiro. Ele me fez lembrar o Roland Barthes. Roland Barthes também praticava Semiótica no dia a dia, no cotidiano. Então ele diz assim, falando sobre o conceito de conotação, ele diz:
– Eu estava no barbeiro. Tomei a revista Paris-Match, comecei a folheá-la, de repente, eu parei e fiquei olhando a capa da revista. Era uma fotografia de um soldado africano, um negro, com a farda do exército, fazendo continência para a bandeira francesa. Eu, imediatamente, – diz Roland Barthes – eu disse: está aí a conotação! Ele está glorificando a pátria, não é? Mas não é a pátria dele. Ele é um soldado africano, mas ele está, praticamente, rendendo homenagem à pátria mãe, que é a França, que outorgou liberdade à Argélia, e etc e tal.
Mesmo porque o general de Gaulle, em seus discursos, ele dizia:
– Quando a França libertar a Argélia – quer dizer, o sujeito é sempre a França, né?
Então, Roland Barthes também captava esses incidentes do cotidiano para, justamente, mostrar que a Semiótica Linguística está na vida, é a Semiótica da vida. E me parece que, com essa atitude, que inspirou os nossos colegas, o professor Francisco da Silva Borba, o professor Ataliba Castilho, o professor João de Almeida, que foram grandes participantes das organizações do GEL, o clima no GEL era de confraria, de encontros, de bate-papos e de um querer aprender do colega, não é o colega que sabe mais do que eu… nós sabemos algumas coisas e vamos repartindo entre os colegas. Eu acho que esse clima no GEL foi fundamental, e ele garantiu a vida da Linguística nas universidades, não é?

 

2) Que papel o GEL poderia desempenhar hoje, diante dos desafios que você vislumbra para a Linguística (brasileira) contemporânea?

Eu estou analisando aqui a segunda pergunta que me foi feita, que é o papel do GEL, hoje, não é? Ele teve esse papel desbravador, como eu procurei demonstrar na primeira fala, e me parece que ele tem um papel fundamental hoje, não mais como desbravador, mas, como eu poderia dizer, seria um papel de abrangência para mostrar exatamente as relações entre a Linguística e as demais disciplinas e as demais ciências humanas. Nesse sentido, me parece importante a ideia de Bakhtin a respeito do signo, não é? Bakhtin nos demonstra que o signo não é uma entidade autônoma, isolada, mas está comprometida com várias dimensões, a dimensão histórica, a dimensão sociológica, a dimensão cultural. O signo, ele é tributário de todas essas dimensões, e, portanto, me parece que, ainda, permanecem algumas barreiras entre a Linguística e outras Ciências Humanas.

Mas quando, por exemplo, eu converso com um psicanalista, eu estou sentindo claramente a necessidade da presença da Linguística e da Semiótica e, não é por um acaso, que alguns analistas aderiram à Semiótica – mas nem todos, porque a Semiótica e a Linguística, me parece, elas se aprofundaram a tal ponto na teoria que, para um principiante, não é muito fácil entender um texto de Semiótica ou de Linguística. É preciso quase que uma tradução, porque ocorre que um signo acaba criando outros signos e outros signos, mais outros signos, e assim por diante, a tal ponto que um termo até bastante conhecido, como “isotopia”, pode gerar uma reação de estranheza para quem não é da área, não é? Então eu acho que um papel importante do GEL seria procurar, eu diria, tornar a Linguística e a Semiótica palatáveis, ao alcance de outras áreas. Não significa baratear a Linguística ou a Semiótica, mas torná-las palatáveis, isto é, fazer um pouco do que Roland Barthes faz, isto é, aproximar-nos do cotidiano, tentar traduzir em termos semióticos, linguísticos, o discurso do cotidiano. E, portanto, essa tentativa de tornar essas ciências palatáveis, ela, naturalmente, corre riscos e pode enfrentar resistências também, mas me parece que falta um pouco isso, porque quando eu participei de um encontro de Linguística há algumas semanas, notei que o discurso do expositor era quase ininteligível, a ponto de as pessoas até saírem durante a apresentação, porque não estavam conseguindo captar bem as coisas, então eu estou muito preocupado com isso, com a transparência da Linguística e da Semiótica – e, também, a possibilidade de estabelecer laços com a Filologia.

A Filologia não deve ser tomada como uma inimiga da Linguística, mas eu acho que ela faz parte, porque nós precisamos das luzes filológicas para entender, por exemplo, aspectos sincrônicos da linguagem, não é? É a filologia que pode nos ajudar. Agora, o que acontece em relação à Filologia é o seguinte: a Filologia Românica, por exemplo, ela teve um papel fundamental na minha época – eu fiz um curso de Letras Clássicas, fiz Filologia Românica, era absolutamente necessário ter a formação em Filologia Românica. Mas acontece que, ao fazer Filologia Românica, havia o pressuposto de que eu conhecia Latim e Grego, e até Sânscrito – nós tínhamos uma especialidade de Sânscrito na época, que era ministrada pelo professor Theodoro Henrique Maurer, que era o catedrático do qual o professor Salum era o assistente. Mas hoje, sem o Latim e sem o Grego, ou pouca gente, eu acho, estudou o Latim, para ver a graça da Filologia e da Filologia Românica, não é? A chamada Gramática Comparada das Línguas Neolatinas, que é um estudo extremamente enriquecedor, e a prova disso é a tese de livre-docência, a tese de titular do professor Salum, cujo tema era “os dias da semana nas línguas românicas”, particularmente, a semana da Língua Portuguesa, que é a única que tem “feira”. Para explicar isso, o professor Salum, seguindo a boa lição de Bakhtin – embora talvez ele não tenha praticado nada de Bakhtin – mas o professor Salum revolveu a História, a Geografia, a Sociologia, para mostrar como que os dias da semana se distribuíam pelos vários países, né? Então a semana francesa, a semana italiana e a semana portuguesa. Para explicar isso, ele produziu uma tese que é um monumento de erudição. Aliás, há até um trabalho agora que está em vias de elaboração, de tentar publicar a tese, porque merece ser conhecida. Então, essa tese envolvia conhecimentos, naturalmente, históricos, geográficos, etc, conhecimentos de Latim, de Grego, e tal, mas conhecimentos de Linguística também, porque o professor Salum também usou as teorias saussureanas para explicar a relação significante x significado, por que lundi, em francês, e por que segunda-feira, em português, etc.

Então, essas disciplinas não são inimigas, elas podem caminhar, mas é claro que quem quiser se dedicar à Filologia Românica, à Filologia de um modo geral, tem de conhecer a história da língua, tem de conhecer o porquê das transformações fonéticas, a influência, etc, de uma língua sobre outra, não é? E, então, me parece que atualmente o GEL pode ter esse papel de um farol para iluminar, realmente, o campo da Linguística e da Semiótica, e o modo como eles são fundamentais para entender os sentidos do mundo, não é? E, nesse caso, eu vou me dedicar, usando as ferramentas semióticas e linguísticas, eu vou me dedicar a entender o comportamento das pessoas, vou me aliar, então, à Psicanálise, à Filosofia, etc, etc, não é? E, portanto, para usar uma expressão de um estudioso, Mario Wandruszka, citado por Eugenio Coseriu, “É fundamental que a Linguística mostre a sua face humana”, não é? E, eu acho que o GEL pode ter esse papel: “Ó, não fiquem assustados com enunciante, enunciador, enunciatário e toda essa terminologia. Não fiquem assustados, nós podemos traduzir isso. Mas eu quero mostrar como isso pode ser aplicado na vida, no dia a dia, o que é que as pessoas estão dizendo? Não é? Qual é o avesso do discurso das pessoas?” A Linguística e a Semiótica podem nos ajudar muito para isso, não é? Eu vou dar um exemplo cotidiano: morava aqui no meu prédio uma família que era conhecida por, principalmente, pela esposa, a senhora da família, que era considerada uma cozinheira de mão cheia. A casa, o apartamento dela aqui no prédio vivia cheio de familiares, convidados, etc e tal. Um dia, eu tomei o elevador com ela, fomos descendo, e eu vi que ela tinha uma mala. Falei: “Ah, que bom, a senhora vai viajar, está de férias, e tal?” Ela deu um longo suspiro e falou assim: “Não, eu vou mudar de fogão.” Eu parei, assim, que isso, né? E depois eu descobri que ela tinha produzido uma metonímia genial, porque ela ia para a chácara da família, onde haveria uma festa de aniversário, e ela ia continuar fazendo a comida lá, não é? Ela ia mudar de fogão. Que metonímia genial, produzida assim num elevador, numa conversa fática, sem nenhuma intenção! Então, isso é que é bonito, que a Linguística e a Semiótica podem nos ajudar a captar onde está a criatividade, a graça da linguagem – e está de posse de qualquer pessoa, mesmo essa senhora, que era uma senhora do lar, não tinha formação universitária, mas foi capaz de criar essa metonímia.

Eu me lembrei de uma clássica metonímia do “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, não é? Quando Sinhá Vitória e Fabiano estão para ir embora, porque a seca já está tomando conta de tudo, há uns restos de água sobrando, e uma ave, chamada de arribação, bandos de ave de arribações chegam e começam a catar os restos de água que sobravam, e, então, a Sinhá Vitória, olhando a paisagem ali, disse: “Precisamos dar um jeito. As arribações matam o gado”. O Fabiano saiu pensando: “Que diabo essa mulher está querendo dizer?” Isso aparece muito claramente no filme “Vidas Secas”, do Nelson Pereira dos Santos. É uma passagem genial, porque o Fabiano sai pensando: “Mas como que a arribação mata o gado? Não pode matar”. Aí ele ficou olhando lá… “É, o gado bebe água…”… Não. “A arribação bebe água, a água falta, o gado morre. Ah é, está certo! As arribações matam o gado!” Então era uma metonímia, mas a Sinhá Vitória, fica claro no romance, que a Sinhá Vitória era muito mais atilada, esperta do que o Fabiano, então ela criou a metonímia também. Isso na literatura, quer dizer, eu posso entrar de cheio na literatura para usar as ferramentas semióticas e linguísticas, né? Eu devo dizer que, no início, aqui, quando a Linguística chegou, havia uma reação muito adversa também. Eu, por exemplo, comecei a analisar, do ponto vista da Linguística e da Semiótica “Vidas Secas”, e um professor da área de Literatura queixou-se ao professor Salum: “Esse rapaz aí, esse Izidoro, ele tá invadindo a minha área com essa ‘Vidas Secas’, isso é Linguística, ele não é Literatura!” Então, havia essa reação bem agressiva, não é?

Bom, mas eu volto à ideia principal: me parece que nós temos muito a oferecer, do ponto de vista da Linguística e da Semiótica, e o GEL pode ter esse papel de “marketing”, esse papel de aproximação, de divulgação das diferentes áreas, de envolver a Psicologia, a Psicanálise, a Sociologia, a Filosofia, etc, não é? E tenho a impressão de que, podendo realizar essa tarefa, o GEL pode ajudar muito a própria Linguística e a Semiótica, mas também ajudar as pessoas a entender onde estão, o que estão fazendo, o que estão dizendo, não é? Eu fiz um estudo sobre algumas mensagens de Facebook para tentar entender o significado do discurso no Facebook. Então, por exemplo, saiu uma notícia no UOL, em que uma senhora de seus 90 e tantos anos estava abandonada, à procura de um abrigo para terminar os seus dias e tal. Então, no Facebook as pessoas se manifestaram. Uma das manifestações, que eu vou reproduzir assim bem rapidamente, era de uma pessoa que dizia: “ora, talvez essa mulher não seja tão infeliz assim, porque eu, por exemplo, na minha vida, tive alguns homens, mas eles não valiam nada, e eu acho que, antes só do que mal acompanhada! Prefiro viver sozinha!”. Na verdade, ela não estava falando da mulher, ela estava falando de si mesma. E estava falando de si mesma e tentando justificar por que ela vivia sozinha. Então eu, quando deparei com a frase, com o texto, eu disse, “Mas o que que está realmente dizendo? Ela não está falando da outra, ela está falando de si e ela não está falando absolutamente da velhice, ela está tentando justificar o porquê da solidão”. É porque antes só do que mal acompanhada, e ela reforçava essa observação com uma expressão proverbial, e o uso do provérbio aparece muito, a gente vê o significado do uso do provérbio no avesso do discurso, ela está tentando justificar por que que ela está só, não é? Então esse é o significado, o significado no avesso, não o significado de superfície. Portanto, eu, com as ferramentas da Linguística e da Semiótica, eu não devo desprezar os textos das redes sociais. Pode ser o maior absurdo que seja, mas eles têm um significado, não é? Às vezes as pessoas dizem: “ah, eu não vou perder tempo em ler essa bobajada!” Não é bobajada! Eu acredito que tudo é um texto, e um texto tem o significado de superfície e um significado no avesso, e, portanto, ele é revelador, não é? Se eu me debruçar sobre as mensagens, as infindáveis mensagens do Facebook, Twitter, etc, se eu me debruçar sobre essas mensagens, eu posso construir uma verdadeira história das mentalidades no ano 2019, não é? Eu vou saber como e o que as pessoas pensavam, realmente, quais eram os valores, não é? Portanto, eu acho que a Linguística e a Semiótica, com o auxílio do GEL, podem ter um papel mais penetrante, mais decisivo, no âmbito das Ciências Humanas.

 

Entrevista concedida a Ênio Sugiyama Jr. (CEDOCH-DL-USP)

Transcrição: Rogério Nóbrega (CEDOCH-DL-USP)

Revisão e edição: Isadora Vaz e Olga Coelho (CEDOCH-DL-USP)

Produção de vídeo: Ênio Sugiyama Jr. (CEDOCH-DL-USP)

Edição de vídeo: Rômulo Borim (IBILCE-UNESP)

Publicação: Luciani Tenani (IBILCE-UNESP)

 

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