Memória: 30 anos de GEL

Os 30 anos de fundação do GEL foram comemorados durante o XLVII Seminário, realizado na Universidade do Sagrado Coração de Jesus (USC), de 27 a 29 de maio de 1999, em Bauru (SP).

Na abertura desse seminário da associação, foi rememorada a história de fundação e ponderado o legado para a consolidação de pesquisas sobre linguagem por todo o estado de São Paulo.

Leia o discurso de abertura do seminário!

Roberto Gomes Camacho em 12/07/2018. Foto: Rômulo Borim.

ROBERTO GOMES CAMACHO

Professor Livre-docente da UNESP (São José do Rio Preto)

Em 27/05/1999

*Foram mantidas as convenções ortográficas vigentes à época.

O ato de fala que por si mesmo dá abertura a este evento executa o início de outro ritual, que é o encerramento dos trabalhos da atual Diretoria. Para compensar a perda que se avizinha, o fechamento da gestão que presido coincide com um marco significativo da vida do GEL, de que muito me orgulho, não como Presidente de sua Diretoria, mas como um membro de seu corpo associativo.

O motivo do orgulho reside no fato de não apenas estar no escopo de meu ato ilocutório o início de um encontro científico de qualidade, mas também de estar nele incluída a celebração de trinta anos de trabalho fecundo e regular. É forçoso reconhecer que os seminários do GEL firmaram tradição na lingüística brasileira, como o resultado da qualidade da produção científica de seus participantes e a conseqüência mais visível disso é a significativa afluência às mais diversas sessões de trabalho, o que vem sustentando a regularidade de quarenta e sete seminários.

Posso afiançar-lhes que a edição, que ora se inaugura, é mais um retrato vivo desse trabalho histórico e, como tal uma compensação às árduas atividades de organização, como indicam as 780 inscrições antecipadas para apresentação de trabalhos. É óbvio que o sucesso da organização de um seminário não se mede pelo número de participações. Há de se reconhecer, porém, que a quantidade de contribuições, sob a perspectiva de quem organiza, é um aspecto altamente relevante. Por essa resposta positiva dos sócios e demais participantes, em nome da Diretoria, manifesto agradecimentos, já que é do trabalho de todos que se vem forjando com sucesso a atuação desta sociedade científica.

Para fazer jus a essa demanda, a Diretoria empenhou-se em convidar, para as sessões plenárias, profissionais de prestígio reconhecido na lingüística brasileira cujas contribuições pudessem contemplar um conjunto diversificado de áreas e linhas de pesquisa. Preserva-se, assim, o critério já adotado em seminários anteriores de promover, na organização das sessões plenárias, exposições concomitantes, que oferecem, por isso, uma possibilidade de seleção, conforme os interesses dos participantes.

Temos consciência, por outro lado, de que essa organização não se viabilizaria com chances mínimas de sucesso, se não fosse possível contarmos com a receptividade e disponibilidade de todos os que compõem, professores, alunos e funcionários, a Universidade do Sagrado Coração, principalmente os integrantes da Comissão Organizadora Local, representados por sua Vice-Reitora, Irmã Alice Garcia de Morais, a quem dirijo agradecimentos em meu nome e no nome de todos os membros da Diretoria.

Não custa recordar, a esse propósito, que este câmpus universitário tem atuado muito significativamente nesses trinta anos de história do GEL, como sede de seus encontros. Aqui se organizou o sétimo Seminário, em 1972, quando se designava o curso de Letras por “Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Sagrado Coração de Jesus”. Ressalto que, no âmbito desse evento, realizou-se uma Assembléia Geral histórica, em que se discutiram e aprovaram os Estatutos do GEL. Essas informações estão contidas na Ata da Reunião da Fundação Jurídica do GEL, que publicamos num Boletim Comemorativo.

Com essa mesma denominação, o Curso de Letras desta Universidade, que ainda estava em estado embrionário, sediou o XX Seminário, realizado em 1978.

Com o nome de Faculdades Integradas do Sagrado Coração, juridicamente mais próxima de seu estatuto atual de Universidade, esta Casa hospedou os participantes do vigésimo nono Seminário, realizado em 1985. Destaque-se, ainda, como atuação relevante, a coedição de três volumes dos Estudos Lingüísticos: 2, de 1978, 10 de 1985, e 27 de 1999.

Vemos, desse modo que a história do Curso de Letras da USC se entrecruza com a do GEL, e é por essa razão que nossa associação mantém fortes laços afetivos com essa Universidade. Pode-se afirmar que a realização do XLVII Seminário devolve a esta Instituição, depois de 14 anos, sua melhor vocação hospitaleira, repetindo-se, com a comemoração dos 30 anos, sua participação histórica de 1972.
Gostaria, agora, de refletir um pouco sobre a história de nossa associação. Uma avaliação tão rápida quanto permite este momento leva-me a concluir que, a fecundidade dos últimos Seminários significa que, apesar de seu âmbito regional, o GEL consolidou-se como um dos espaços privilegiados de discussão do fenômeno lingüístico; mas significa também que a consolidação desse espaço foi uma conquista de todos os seus associados como o resultado do desejo grandioso que norteou sua criação e que se vem sustentando tenazmente ao longo de todas as diretorias que nos antecederam.

A pedra inaugural de nosso Grupo de Estudos Lingüísticos foi depositada em 29 de janeiro de 1969. Nessa data, reuniram-se alguns professores de Lingüística Geral e Portuguesa na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, convocados por Isaac Nicolau Salum, para discutir a idéia, sugerida pelo Prof. Ataliba Teixeira de Castilho, de constituição de um grupo informal de pesquisadores.

O objetivo inicial era compartilhar conhecimentos sobre o estudo e o ensino da lingüística, promover a veiculação de informação científica e desenvolver projetos comuns de pesquisa entre os professores que o GEL viesse a congregar, principalmente em virtude de a Lingüística ter sido incluída, em 1962, como disciplina regular no currículo dos cursos de Licenciatura em Letras.

A rica herança de que hoje desfrutamos pode ser creditada ao pioneirismo dos professores Isaac Nicolau Salum, da USP, e Ataliba Teixeira de Castilho, então da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Marília, primeiro presidente do GEL. Em torno deles, reuniu-se um grupo formado por Cidmar Teodoro Pais e Izidoro Blikstein, da USP, Francisco da Silva Borba, da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara, Ignácio Assis da Silva, da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São José do Rio Preto, e João de Almeida, da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis. Como se vê, o r-retroflexo era a marca mais visível, no nível formal, da irresistível vocação interiorana do GEL, que algumas elocuções como esta insistem obstinadamente ainda em preservar.

Para nossa tristeza, o Prof. Salum está ausente de nosso convívio. E, certamente, como membro fundador de alguma associação celestial, deve estar argumentando com Aristóteles em favor da aplicabilidade de seus diagramas à análise estrutural da crônica “Caçada de Paca”, de Rubem Braga, com o mesmo entusiasmo para o debate com o qual desenvolveu esse tema no VII seminário do GEL, aqui realizado em 1972.

Logo em seguida à sua criação, na década de 70, os seminários do GEL passaram a refletir a pesquisa motivada pelo surgimento e pela expansão dos programas de pós-graduação. Dos textos de divulgação de conhecimentos que deram partida às atividades iniciais, incluíram-se sessões de comunicações, inauguradas em 1974, no XII seminário realizado em Assis, na gestão de João de Almeida.
A demanda por pesquisa em equipe refletiu-se explicitamente no acréscimo progressivo de sessões de comunicações coordenadas e de grupos de trabalho, iniciadas em 1982, no XXV seminário, realizado em Campinas, na gestão de Eduardo Guimarães. Simultaneamente, os temas de conferências e mesas-redondas iam-se dirigindo para novas frentes que a necessidade científica ia abrindo e para áreas que ia renovando, como a lingüística histórica.

Ao longo de sua trajetória, o GEL assimilou o paradigma gerativista que, como um furacão avassalador, varria do cenário científico o descritivismo exageradamente estreito de algumas tendências do estruturalismo, que vigorava até a década de 70. Não passou muito tempo para que seus seminários refletissem o surgimento de novos referenciais teóricos, trazidos pela Gramática Funcional, pela Lingüística do Texto, pela Análise do Discurso, pela Sociolingüística, pela Psicolingüística, pela Análise da Conversação. Nessa passagem, pode-se dizer que o sistema gramatical, aparentemente impenetrável em sua solidez e consistência, desestabilizou-se, abrindo-se inevitavelmente para materialidade irrecusável do discurso, e a sintaxe, antes considerada impermeável, viu-se invadida pelas motivações semânticas e pragmáticas. Hoje o que se vê é mais convivência teórico-metodológica que concorrência, como aliás, o atesta a multiplicação de áreas temáticas tão bem refletida na diversidade dos trabalhos que vêm sendo apresentados.

Desde o início, o GEL representa um cenário institucional cujos atores medeiam entre a iniciação e a maturidade científica, num convívio altamente salutar. Incorporou, inicialmente, os professores; em seguida, os pós-graduandos, e, finalmente, os graduandos. A demanda por divulgação de pesquisa teve sua conseqüência mais significativa em 78, na gestão de Rodolfo Ilari, com o início da publicação dos Estudos Lingüísticos. O crescimento dessa demanda resultou obviamente no aumento de quantidade, o que conduziu, na década de noventa, às edições em dois volumes dos Estudos Lingüísticos.

A principal conseqüência do aumento de quantidade foi a demanda por qualidade que restringiu a publicação aos textos aprovados por membros ad hoc do conselho editorial, instalado a partir de 95, na gestão de Geraldo Cintra. Vale ressaltar, no entanto, que no âmbito da exposição oral de trabalhos, o GEL mantém uma de suas marcas mais características e representativas, a de constituir-se num fórum de debates aberto à exposição de todos os pesquisadores, inclusive os iniciantes.

O saldo, ao que me parece, é altamente positivo. Mesmo assim, nem a maturidade dos 30 anos de existência nem a plena consolidação institucional do GEL devem levar à estagnação e ao imobilismo. Certamente novos desafios se imporão. Resta-nos enfrentá-los com o mesmo espírito aberto que caracterizou o ato primeiro de fundação. A mim parece-me que há dois desafios que esta associação necessita enfrentar, um de natureza científica e outro, de natureza política.

O desafio científico diz respeito ao papel que o GEL deve desempenhar no cenário atual da lingüística brasileira, em face dos grandes projetos interuniversitários que se vêm desenvolvendo, dentre os quais eu mencionaria apenas o Projeto de Gramática do Português Falado, o Projeto para a História do Português Brasileiro e o Projeto Atlas Lingüístico do Brasil (ALIB). Deveria o GEL assumir uma função de aglutinador de projetos coletivos semelhantes no âmbito em que mais atua, o da pesquisa lingüística do Estado de São Paulo?

O segundo desafio, este de natureza política, refere-se, a meu ver, ao papel que o GEL deve desempenhar para enfrentar a progressiva instalação, no interior das Universidades Públicas, das mesmas regras e leis de mercado impostas a toda a sociedade brasileira, com base na política francamente neoliberal adotada pelo Governo. Nesse novo modelo econômico, a Universidade, que Marilena Chauí (1999) chamou apropriadamente de “Universidade Operacional”, perde aos poucos a legitimidade fundada na idéia de autonomia do saber diante do Estado, legitimidade essa obtida a duras penas ao longo de sua história. Se for necessário refletir sobre como esse modelo afetará a ciência e a tecnologia do Estado de São Paulo e do Brasil, penso que associações científicas, como o GEL, têm um papel importante a desempenhar como centro organizador dessa reflexão.

Ao final desta sessão inaugural, entregamos aos participantes o resultado de nosso melhor esforço. Estamos certos de que a programação cumprirá com sobra as exigências de qualidade de uma reunião científica desse porte, não apenas em função do brilhantismo dos convidados, mas também da qualidade que certamente advirá dos trabalhos de todos os participantes. Resta-me, então, convidá-los ao debate, razão de ser de um seminário científico como este, já que põe, numa verdadeira relação dialética, os antagonismos e as divergências, um dos traços distintivos da ciência. A esse propósito, vale a pena lembrar, citando Emmon Bach (1973), que quando nós todos concordamos será apenas porque nossa ciência está morta.

Referências Bibliográficas

CHAUÍ, M. A universidade operacional. Folha de S. Paulo. São Paulo, 9 maio 1999, caderno Mais!, p.3.
BACH, E. A lingüística estrutural e a filosofia da ciência. In: CHOMSKY, N.A. et al.  Novas perspectivas lingüísticas. Petrópolis: Vozes, 1973, p. 11-27.

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