Diretoria 1993-1995 (USP – SÃO PAULO)

Presidente: Geraldo Cintra

Vice-presidente: Maria Adélia Ferreira Mauro

Secretária: Guiomar Fanganiello Calçada

Tesoureiro: Waldemar Ferreira Netto

 

Leia a entrevista concedida por todos os membros da diretoria!

 

1) O que significava o GEL para a Linguística de São Paulo e do Brasil no momento em que você participou de sua diretoria? Houve algum fato marcante ou curiosidade que gostaria de partilhar?

Geraldo Cintra

O GEL em si foi uma de duas associações fundadas ao mesmo tempo, em 1969. A importância do GEL é enorme, porque é a primeira associação estadual no Brasil. Em 1967, o Ataliba de Castilho sugeriu a criação do GEL e da ABRALIN em um famoso seminário de linguística, em Marília. Saiu na Revista Alfa número 11. Ele propôs que se criasse uma associação nacional e uma estadual nesse seminário famoso, do qual eu tive a honra de participar, não como professor de universidade, mas como membro do Centro de Linguística Aplicada do Instituto Yázigi, que foi o primeiro centro de linguística aplicada no Brasil. E foi quando eu conheci o Ataliba. Estavam ali Mattoso Câmara (1904-1970), Ataliba Castilho, eu e outros. Então disseram que deveria haver um secretário. O Mattoso Câmara sugeriu o meu nome. Se o Mattoso Câmara sugeriu, acabou, já estava indicado. E eu fiz aquela correspondência e todo o restante.

O GEL em qualquer momento, em minha opinião, é muito importante, inclusive historicamente, porque foi o primeiro grupo estadual em um momento em que não havia nenhum outro. Tudo veio depois. Inspirados no GEL, surgiram outros grupos. No Sul, tem o CELSUL. Serviu de inspiração para nomes, como o GELNE, no Nordeste. O GEL sempre foi muito importante, na minha maneira de ver, primeiramente por reunir as pessoas interessadas. O GEL “aglutinou” isso, já que estamos falando de morfologia, e a criação dos seminários provoca essa reunião constante dos interessados, que atrai gente do Brasil inteiro, não só de São Paulo. E vem gente do exterior para participar do GEL. O escopo da ABRALIN é outro. A ABRALIN era importante de uma outra maneira, mais geral.

Eu não estou no GEL desde o começo. Eu entrei no GEL depois, lá pelo terceiro ou quarto ano. Eu tenho os anais do GEL desde o primeiro, porque o Ataliba me deu os três primeiros. Todos os que foram publicados eu tenho. Hoje em dia está tudo na rede, mas eu gosto mais do livro. O GEL, cuja importância é igual à da ABRALIN, mantidas as devidas proporções, foi sugestão do Ataliba Castilho. Ele é muito bom. Eu sou suspeito, porque eu gosto muito do Ataliba. Eu o considero o maior nome da língua portuguesa no Brasil. Não consigo pôr ninguém à mesma altura. Ele trabalha muito, e com uma vantagem: sabe ler grego clássico. Poucos sabem. Precisa ler Xenofonte? Ele lê, não vai buscar tradução. Sabe inglês muito bem, francês. O Mattoso Câmara, que me conhecia bem, sabia muito… e com uma vantagem em que nós não pensamos: a estrutura de uma língua para um arquiteto é um prato cheio!

Uma coisa que fizemos no período de nossa diretoria, que nunca tinha sido feita, foi o registro em cartório das atas do GEL. Nós fizemos isso na Travessa Miguel Couto, perto da Praça do Patriarca [em São Paulo]. Nós fomos lá e registramos todas as atas, que eu havia digitado antes no computador.

 

Maria Adélia Ferreira Mauro

Fomos conduzidos à Diretoria do GEL por indicação dos Departamentos de Linguística e de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH da Universidade de São Paulo. Assumimos uma grande responsabilidade, uma vez que, no triênio 1993-1995, comemorava-se o 25º aniversário do GEL – uma associação de muita importância para a divulgação dos estudos linguísticos realizados pelas universidades paulistas e também de outros estados do Brasil. Deparamos com o desafio de acolher um numeroso público de pesquisadores e estudantes, o que demandava a escolha de um espaço físico adequado e de recursos financeiros para dar suporte material e técnico à realização dos seminários. O “gigantismo” e abrangência da(s) participações/produção linguística nos 25 anos de GEL estão relatadas no Mapeamento Historiográfico da Produção Lingüística nos 25 anos do GEL (Altman et alii, 1995). Mas o desafio não estava apenas na organização dos Seminários, pois uma série de questões se colocava para nós, o grupo gestor: o recadastramento de sócios; a publicação do volumoso Anais (na ocasião, com 1500 páginas); critérios para a distribuição dos Anais e demais materiais impressos; normas para publicação nos Anais; a regularização do GEL como entidade jurídica; a obtenção de financiamento junto às agências de fomento. Foram problemas equacionados e encaminhados para solução, pelo grupo gestor, a quem agradeço na pessoa do Professor Waldemar e da Professora Guiomar e aos alunos de graduação e pós-graduação, que deram suporte à preparação e execução dos seminários. Em especial, agradeço à Direção da FFLCH, aos chefes de Departamento de Linguística e Letras Clássicas e Vernáculas e respectivos Programas de Pós-Graduação pelo apoio, e à Comissão de Avaliação [do GEL], que estabeleceu critérios para a publicação dos trabalhos nos Anais. À UNAERP, cabe também nosso agradecimento pela acolhida e suporte material e técnico.
Como fato marcante, considero a participação dos Grupos de Pesquisa, cada vez mais estruturados em torno de temas linguísticos relevantes. E falando em grupo, ressalto a unidade, firmeza e habilidade de nosso grupo gestor na condução dos trabalhos, visando à qualidade técnica e científica de nossa Associação.

 

Guiomar Fanganiello Calçada

O GEL significava tanto para o Estado de São Paulo como para o país como um todo uma oportunidade muito importante para todos os pesquisadores experientes e pós-graduandos apresentarem seus trabalhos e conhecerem os trabalhos de seus colegas na mesma linha de pesquisa e em outras áreas da linguística. Na área de lexicologia e lexicografia, por exemplo, em que fui mais atuante, o GEL contribuiu para a consolidação de pesquisas bastante relevantes.

 

Waldemar Ferreira Netto

De uma maneira geral, o GEL sempre manteve a característica fundamental de ser um espaço, hipoteticamente regional, destinado à iniciação acadêmica, seja de alunos, seja de docentes. É um dos primeiros passos fora da casinha. Naquele momento isso não foi muito diferente. Todos os trabalhos eram publicados em livro impresso. Havia, ainda, uma discussão sobre a participação de trabalhos com temas especificamente literários, o que sempre causava alguma polêmica. Dentre os fatos marcantes, talvez ressaltar alguma discussão que aparecia, também causando incômodo, sobre uma hipotética desaprovação regular de trabalhos linguísticos em periódicos nacionais.

 

2. Que papel o GEL poderia desempenhar hoje, diante dos desafios que você vislumbra para a Linguística (brasileira) contemporânea?

Geraldo Cintra

Eu diria que o mesmo papel, porém, continuado, com um número maior de sócios. Isso é importante, porque tem muito mais gente interessada. Naquele tempo, o número de interessados não era grande. Era muito pouca gente. Havia interessados que conheciam linguística, porque estudaram fora, que era o caso do Francisco Cardoso Gomes de Matos. O Francisco tinha feito mestrado em Michigan, que era uma universidade muito importante para a linguística aplicada. Em outros lugares, o escopo era mais teórico. Mas havia outras pessoas que estudaram linguística fora. Eu não tinha estudado fora, mas havia uma ligação em razão de minha atuação como professor de inglês em um curso totalmente baseado em linguística estruturalista. Na faculdade não existia linguística.

O número de interessados é cada vez maior, porque todo mundo estuda linguística no curso de Letras. Muita gente que não é de Letras estuda linguística. Então, o GEL consegue reunir todo o pessoal interessado não só em uma associação, que é uma coisa importante, mas também em atividades. O Seminário do GEL não é só o seminário do GEL. É um ponto de encontro. As livrarias estão vendendo livros com desconto, tem sorteios. Eu ia sempre com um colega de onde eu estivesse trabalhando. E era um lugar de encontrar os outros, como, por exemplo, a Luciani Tenani, que eu conheci na Unicamp. Eu tenho a impressão de que a importância do GEL é essa, porque ele permite a reunião dos interessados e cria um momento de encontro, que, para mim, por exemplo, era sempre importante. Eu ia a todos os encontros do GEL. Mesmo que eu não tivesse um trabalho – eu, geralmente, tinha –, eu ia para assistir aos trabalhos dos outros. Eu ia sempre por esse interesse. É aquele ponto para você encontrar os colegas, conhecer os colegas. Tem gente que você conhece por ter comprado o livro, e a pessoa está lá. Eu acho que o tamanho que ficou o GEL não vai mudar. Mas quando eu ia, ficava perdido lá dentro. Hoje o número de trabalhos é muito grande. Muita coisa para quem se interessa por muitas áreas. Eu me interesso por fonologia, por morfologia. Tem muita coisa de língua indígena que me interessa. História das línguas me interessa. Historiografia me interessa. No começo, não. Você podia ver muitas apresentações. Se você tem cinco coisas que te interessam no mesmo horário, como você faz?

 

Maria Adélia Ferreira Mauro

Uma Associação que comemora 50 anos de existência por si só mostra a sua importância no cenário da pesquisa regional e nacional. Há 25 anos, já se notava a preocupação da Diretoria e associados com a “qualidade” da programação dos Seminários, dos trabalhos aí apresentados e de sua publicação, sem que tais critérios viessem frustrar o caráter democrático do GEL. Diante da multiplicidade de áreas, temas e objetos de pesquisa que ora se multiplicam no campo dos estudos linguísticos, o desafio está em valorizar os trabalhos que efetivamente despontam como avanços da pesquisa nesse campo.

 

Guiomar Fanganiello Calçada

A virtude do GEL, que foi seu grande crescimento, também se reflete um pouco na maior dificuldade de conseguirmos acompanhar os trabalhos, pois a quantidade de apresentações se tornou bastante numerosa, mas o GEL pode continuar desempenhando o mesmo papel que vem cumprindo muito bem desde a sua origem, que é o de abrir um espaço propício para que pesquisadores das mais diferentes vertentes possam apresentar e discutir seus trabalhos em linguística.

 

Waldemar Ferreira Netto

Imagino que o GEL deve continuar com o seu papel mais tradicional que é o incentivo à produção de trabalhos acadêmicos. Como ele já serviu de modelo para a formação de outros grupos regionais, creio que ele ainda mantém uma certa liderança nesse sentido. Assim, quaisquer mudanças que ocorram em suas características acabam se refletindo em outros grupos com natureza semelhante. Uma das possibilidades, dentre as muitas existentes, é o fato de o GEL ter condições de ir além das panelinhas teóricas, na medida em que consegue abarcar todas as tendências. Por isso mesmo, a interdisciplinaridade, da linguística com outras ciências, talvez venha a ter um corpo mais presente nos trabalhos apresentados. Pelo menos eu gostaria que fosse assim. Por ter condições de abarcar todas as tendências teóricas, há chances de que ousadias teóricas se manifestem. Isso pode ser muito bom para a linguística nacional, contemporânea. Atualmente, o que se vê é que essas ousadias teóricas, bem como os trabalhos interdisciplinares ocorrem apenas em encontros internacionais, muito distantes e nem sempre com publicações acessíveis, ou em encontros temáticos com divulgação mínima, o que os torna igualmente inacessíveis.

 

Entrevista concedida a Rogério Nobrega (CEDOCH-DL-USP)

Edição e revisão: Rogério Nobrega (CEDOCH-DL-USP)

Publicação: Luciani Tenani (IBILCE-UNESP)

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