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Programação do 61º seminário do GEL


61º SEMINáRIO DO GEL - 2013
Título: Definição de anáfora como covariação
Autor(es): Luiz Arthur Pagani. In: SEMINÁRIO DO GEL, 61 , 2013, Programação... São Paulo (SP): GEL, 2013. Acesso em: 21/10/2019
Palavra-chave anfora,covariao,pronome
Resumo Na nossa tradição gramatical, é comum associar anáfora e referência na definição dos pronomes. Ela pode ser observada nesta citação: “Pronome é a palavra que denota o ente ou a ele se refere, considerando-o apenas como pessoa do discurso.” (Said Ali 1923: 61; apud Rocha Lima 1999: 110) Esta associação chega até concepções mais recentes: “O pronome pessoal tem uma natureza fórica, isto é, ele é um elemento que tem como traço categorial a capacidade de fazer referência pessoal” (Moura Neves 1999: 449) Em alguns casos, fala-se de correferência e identidade referencial: “as AD [anáforas diretas] retomam referentes previamente introduzidos, ou seja, estabeleceriam uma relação de correferência entre o elemento anafórico e o seu antecedente. Parece haver uma equivalência semântica e sobretudo uma identidade referencial entre a anáfora e seu antecedente.” (Marcuschi 2001: 219) Contudo, estas definições não dão conta de exemplos em que o antecedente é um SN quantificado, como em (1), onde não há especificação de referente. (1) Toda menina quer ganhar o brinquedo que ela ainda não tem. Era de se esperar que concepções referencialistas, como as de Said Ali e de Moura Neves, atribuísse ao pronome apenas uma interpretação dêitica: `toda menina quer ganhar o brinquedo que alguém (do sexo feminino e contextualmente indicada) não tem'. Mesmo em interpretações correferencialistas, como a de Marcuschi (que poderiam identificar melhor uma dependência entre o pronome e seu antecedente), a equiparação entre pronome e antecedente é equivocada: como o SN “toda menina” não é referencial (não designa ninguém – nem mesmo indeterminadamente, como sugere a classificação tradicional de “toda” como pronome indefinido), e sim quantificacional (é uma instrução para percorrer o domínio, que só é bem sucedida quando todos os que satisfazem a restrição – a denotação de “menina”, no nosso caso – também satisfizerem o escopo – o predicado “quer ganhar o brinquedo que ela não tem”), não há um referente do qual “ela” pudesse ser correferente. Devido à quantificação, seria mais coerente conceber a anáfora como covariação: o anafórico herda a atribuição de valor semântico variável imposta a seu antecedente. Isso daria conta tanto da identidade referencial (em (2), a covariação seria trivialmente satisfeita por não haver o que variar), quanto da dependência com o antecedente quantificado (em (1), a interpretação de “ela” covaria de acordo com a instrução imposta pelo quantificador universal). (2) Maria quer ganhar o brinquedo que ela ainda não tem.