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Programação do 61º seminário do GEL


61º SEMINáRIO DO GEL - 2013
Título: O habitus dos gramáticos: observações a partir de Júlio Ribeiro e suas Cartas Sertanejas
Autor(es): HELCIUS BATISTA PEREIRA. In: SEMINÁRIO DO GEL, 61 , 2013, Programação... São Paulo (SP): GEL, 2013. Acesso em: 21/10/2019
Palavra-chave gramatizao,habitus lingustico,norma
Resumo O trabalho tem por objetivo colaborar para a reflexão sobre a gramatização da língua portuguesa no Brasil, discutindo o papel e o comportamento dos gramáticos. Em especial avaliamos a figura de Júlio Ribeiro, um dos mais importantes intelectuais brasileiros ao final do século XIX e início do XX, responsável pela introdução da chamada gramática científica no Brasil, com abordagem que rompeu com a tradição de seu tempo, defendendo o método histórico-comparativo. Para realizar tal trabalho, recuperamos as perspectivas sobre norma contrastadas por Quadros (2005). Assim, temos a visão de Eugenio Coseriu, que definiu norma como o intermediário entre a Língua (o sistema) e a fala (realização individual). A perspectiva pragmática proposta por A. Rey supõe que ao lado da norma prescrita e daquela que é usada pelos grupos sociais (a objetiva), há a que é idealizada pelos falantes (a subjetiva), de modo aspiracional. A proposta antropológica de Aléong afirma a existência de duas normas: a implícita, própria de um agrupamento social, e a explícita, codificada em manuais de gramática e pelos dicionários. A este quadro teórico, oferecemos duas interpretações adicionais de base sociológica: a primeira, buscamos na concepção de dominação racional-legal de Max Weber. Comum em várias instâncias da sociedade moderna ocidental, esta se baseia na legitimidade das ordens estatuídas e do direito de mando daqueles que, em virtude dessas mesmas ordens, estão nomeados para exercer a dominação. A obediência vem de regra instituída de forma impessoal e abstrata. Os que exercem o poder o fazem em função de preceitos jurídicos. A gramatização cumpre exatamente o papel de constituir material legal para imposição da dominação linguística. A segunda interpretação, obtivemos em Pierre Bourdieu. Para o sociólogo, no campo linguístico, os falantes se enfrentam, cada qual munido de um certo capital linguístico e agindo conforme seu habitus. Os mais capitalizados conseguem, em suas trocas, impor seus produtos linguísticos, aferindo lucros simbólicos. A gramatização da língua deve estar inserida no jogo formado em torno do poder simbólico. A língua legítima - a que é legitimada nos embates no mercado linguístico e tomada como parâmetro pelos grupos sociais - conta com o apoio do aparato escolar, revestido de autoridade para exercer "universalmente uma ação de inculcação duradoura em matéria de linguagem" (Bourdieu, 2008: 50), no que é sustentado pela codificação da língua em manuais de gramática.